28 março 2025

[Opinião] Pedro, Paulo e Francisco

Por Augustus Nicodemus 

A análise da vida e do legado de Pedro e Paulo, em comparação com o papado contemporâneo, evidencia profundas divergências entre a eclesiologia bíblica e a estrutura hierárquica da Igreja de Roma.

Pedro, conforme suas próprias palavras em 2Pedro 1.12-15, mostra-se preocupado em deixar aos cristãos não um sucessor institucional, mas uma memória fiel da verdade por meio das Escrituras. A ênfase está na permanência da doutrina, não na criação de um ofício perpétuo. A autoridade apostólica, em sua concepção, é transmitida por meio da Palavra escrita e não por meio de uma cadeia de sucessores.

Paulo, igualmente, compreendia seu ministério como um chamado direto de Cristo. Ele rejeitava qualquer tentativa de centralização ou culto à personalidade, como se vê em 1Coríntios 1.10-17. Sua preocupação era com a pureza do evangelho e a edificação de igrejas locais governadas por presbíteros, não por uma figura singular e suprema. O apóstolo apontava constantemente para Cristo como cabeça da Igreja (Ef 1.22-23), não para si mesmo nem para outro homem.

A figura do papa, mesmo quando revestida de gestos simbólicos de humildade, como a escolha do nome Francisco, permanece inserida em uma estrutura incompatível com o padrão apostólico. A autoridade papal, com pretensões de infalibilidade e jurisdição universal, não encontra fundamento no Novo Testamento. O modelo apostólico é descentralizado, pastoral, fundamentado na suficiência das Escrituras e na liderança de Cristo.

A crítica ao papado, portanto, não se dirige apenas ao indivíduo que ocupa a posição, mas à própria noção de uma autoridade eclesiástica suprema sobre a Igreja de Cristo. A sucessão legítima não é episcopal, mas doutrinária. Os apóstolos legaram à Igreja as Escrituras como fundamento permanente da fé. O papado, ao postular uma autoridade paralela à da Palavra, compromete a centralidade de Cristo e enfraquece a doutrina da suficiência das Escrituras.

Em contraste com o sistema romano, a Igreja fiel deve recuperar a simplicidade e a pureza do modelo neotestamentário: uma comunidade edificada sobre o ensino dos apóstolos, preservado nas Escrituras, com Cristo como único cabeça e pastor supremo.


0 comments:

Postar um comentário