11 março 2025

A Santificação e a luta contra a Carne

Estudo proferido na EBD da Igreja Presbiteriana do Ibura, em Recife/PE 

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
Capítulo XIII. Da Santificação 

Na seção II e III do capítulo 13, temos o seguinte: 

Seção II. Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda subsiste em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável – a carne lutando contra o Espírito, e o Espírito contra a carne.

Seção III. Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que restam, contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada do homem novo vence, e assim os santos crescem em graça, aperfeiçoando a sua santidade no temor de Deus.


Na teologia reformada, a santificação é entendida como um processo gradual e contínuo, impulsionado pela obra do Espírito Santo. Após a regeneração, o Espírito Santo infunde novos dons, qualidades e hábitos na vontade do crente, capacitando-o a produzir frutos de boas ações.

A Imperfeição da Santificação e a Luta Interna

A santificação, embora abranja o ser humano por completo, é um processo imperfeito nesta vida terrena (Filipenses 3:12). A persistência de resquícios de corrupção em cada parte do indivíduo regenerado resulta em uma contínua e irreconciliável guerra interior (Romanos 7:23). Essa batalha se manifesta na oposição entre a carne e o Espírito, uma luta constante entre os desejos da natureza pecaminosa e a influência do Espírito Santo. Em Gálatas 5:16-17, ele exorta os crentes a andar no Espírito para não satisfazerem os desejos da carne, pois a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne. Essa oposição impede que os crentes façam o que querem.

A Vitória da Graça e o Crescimento na Santidade

Apesar da persistência da corrupção e da intensidade da luta interna, a graça divina se manifesta de forma triunfante (Romanos 5:20). Pelo contínuo auxílio do Espírito Santo, a parte regenerada do novo homem prevalece sobre as corrupções remanescentes (Romanos 8:13). Essa vitória progressiva capacita os santos a crescerem em graça, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus (2 Coríntios 7:1).

A vitória da graça e o crescimento na santidade podem ser compreendidos através dos seguintes aspectos:

Ação Contínua do Espírito Santo

A vitória sobre a corrupção remanescente e o crescimento na santidade são resultados diretos do contínuo auxílio do Espírito Santo (Gálatas 5:16). É o Espírito quem capacita os crentes a resistirem aos desejos da carne e a produzirem frutos de justiça (Gálatas 5:22-23). O Espírito Santo é o agente santificador, transformando progressivamente o crente à imagem de Cristo (2 Coríntios 3:18).

Cooperação Humana

Embora a santificação seja primariamente uma obra de Deus, ela também envolve a cooperação humana (Filipenses 2:12-13). Os crentes são chamados a se esforçarem na busca pela santidade, utilizando os meios de graça que Deus disponibiliza (Hebreus 12:14). Isso inclui a leitura e meditação na Bíblia (Salmos 1:2), a oração (1 Tessalonicenses 5:17), a adoração (João 4:24), o testemunho (Mateus 5:16), a prática de atos de misericórdia e justiça (Miquéias 6:8), a comunhão cristã (Hebreus 10:25) e a autodisciplina (1 Coríntios 9:27).

Transformação Integral

A santificação afeta a pessoa como um todo, purificando-a de tudo o que contamina o corpo e o espírito (2 Coríntios 7:1). Ela não se limita a uma mera mudança de comportamento, mas envolve uma renovação da mente, das emoções e da vontade (Romanos 12:2). O objetivo final da santificação é a conformidade com a imagem de Cristo, tornando os crentes cada vez mais semelhantes a Ele em pensamento, palavra e ação (Romanos 8:29).

Processo Gradual e Contínuo

A santificação não é um evento único e instantâneo, mas um processo gradual e contínuo que se estende ao longo da vida do crente (Provérbios 4:18). Embora possa haver momentos de progresso e retrocesso, a direção geral da vida do crente deve ser de crescimento constante na graça e no conhecimento de Cristo (2 Pedro 3:18).

Aperfeiçoamento Progressivo

Paulo fala sobre a necessidade de esquecer o passado e avançar em direção ao alvo, buscando a perfeição (Filipenses 3:13-14). Embora a perfeição completa não seja alcançável nesta vida, os crentes devem se esforçar continuamente para aperfeiçoar a santidade no temor de Deus (2 Coríntios 7:1). Isso envolve uma busca constante pela pureza de coração (Mateus 5:8), pela prática da justiça (1 João 3:7) e pela obediência aos mandamentos de Deus (João 14:15).

Alegria e Paz

A santificação traz consigo grande alegria e paz (Gálatas 5:22). Quanto mais os crentes crescem em semelhança a Cristo, mais experimentam a alegria e a paz que são frutos do Espírito Santo (Romanos 14:17). A santificação também os aproxima da verdadeira felicidade e da plenitude de vida que Deus oferece: “...eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (João 10:10).

Meios de Graça

Os meios de graça desempenham um papel fundamental no processo de santificação. A Palavra de Deus, os sacramentos (batismo e Ceia do Senhor) e a oração são instrumentos pelos quais o Espírito Santo comunica a graça divina e transforma os crentes à imagem de Cristo (Efésios 5:26; 1 Coríntios 11:23-26; Efésios 6:18). O uso diligente desses meios capacita os crentes a crescerem em santidade e a experimentarem a plenitude da vida cristã (Colossenses 3:16).

A Graça Imediata e a Ação Interna de Deus

A eficácia da graça divina na santificação é demonstrada pela corrupção humana (Efésios 2:1-5). A visão espiritual da fé e a revelação da doutrina na Palavra só são possíveis mediante a restauração da faculdade corrompida (1 Coríntios 2:14). Deus opera nos corações dos homens por um poder interno e oculto, gerando não apenas revelações genuínas, mas também a boa vontade (Filipenses 2:13).

As Escrituras atribuem a Deus uma ação interna na conversão do homem (João 6:44). Ele efetua tanto o querer quanto o realizar, cumprindo todo propósito de bondade e obra de fé (2 Tessalonicenses 1:11) e operando o que é agradável diante dEle (Hebreus 13:21).

Implicações para a Vida Cristã

A doutrina da santificação tem implicações importantes para a conduta da vida cristã. Ela enfatiza a necessidade de buscar a reconciliação com Deus e a incorporação em sua comunhão (2 Coríntios 5:18). A ordem da salvação, ou ordo salutis, busca responder à questão de como o pecador obtém os benefícios da graça adquirida por Cristo (Efésios 2:8-9).

A vida interior do povo de Deus, até o fim de seu curso neste mundo, é uma repetição da conversão (Mateus 18:3). É um contínuo voltar-se para Deus, uma constante renovação de confissão, arrependimento e fé (1 João 1:9; Atos 3:19), um morrer para o pecado e um viver para a justiça (Romanos 6:11).

Conclusão

A Confissão de Fé de Westminster oferece uma síntese clara dessa doutrina, guiando os crentes na busca pela santidade. A santificação é um processo contínuo e dinâmico, iniciado na regeneração e estendido por toda a vida do crente, transformando o crente à imagem de Cristo e capacitando-o a viver para a glória de Deus. Embora não alcance perfeição nesta vida, o crente, capacitado pela graça de Deus, luta contra o pecado e busca a conformidade com a imagem de Cristo. A fé, como meio de apropriação da graça divina, é evidenciada por boas obras que refletem uma transformação interior operada pelo Espírito Santo. Esse processo envolve uma constante batalha espiritual, onde o crente se esforça para mortificar as obras da carne e viver em obediência a Deus. A compreensão da santificação requer uma interpretação cuidadosa das Escrituras, destacando a centralidade da graça divina e a importância da obediência.


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