20 março 2025

A Fé Salvadora

Estudo proferido na EBD da Igreja Presbiteriana do Ibura, em Recife/PE 

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
Capítulo XIV. Da Fé Salvadora 

Na seção I do capítulo 14, temos o seguinte:

Seção I. A graça da fé, por meio da qual os eleitos são habilitados a crer para a salvação da sua alma, é obra que o Espírito de Cristo faz no coração deles, e é ordinariamente operada pelo ministério da Palavra; por esse ministério, bem como pela administração dos sacramentos e pela oração, ela é aumentada e fortalecida.


O parágrafo que inicia a Seção I do Capítulo 14 introduz o conceito da fé salvadora dentro da teologia reformada. Esta doutrina é apresentada primariamente como uma graça, um dom soberano de Deus operado no coração dos eleitos pelo Espírito de Cristo, habilitando-os a crer para a salvação. Essa fé, essencial para a apropriação da salvação, é ordinariamente produzida e fortalecida através do ministério da Palavra, bem como pela administração dos sacramentos e pela oração, constituindo os meios de graça instituídos por Deus para comunicar as bênçãos da redenção ao seu povo. A exposição desta doutrina estabelece a fé salvadora como uma obra divina e um elemento central na soteriologia reformada.

1. A Natureza da Fé Salvadora como Graça e Sua Finalidade

O texto inicia caracterizando a fé salvadora como uma "graça da fé". Este ponto é crucial, pois denota que a capacidade de crer para a salvação não é inerente ao ser humano decaído, mas sim um dom divino. A fé, portanto, não se origina da vontade ou capacidade humana, mas é uma concessão graciosa de Deus (Filipenses 1:29). Como afirmado em Efésios 2.8, a salvação é pela graça, “por meio da fé, e isto não provém de nós, mas é dom de Deus”.

A finalidade desta graça da fé é explicitamente declarada: "para a salvação da sua alma" (1 Pedro 1:9). A fé, portanto, é o instrumento pelo qual os eleitos são habilitados a alcançar a salvação eterna (Efésios 2:8-9). Hebreus 10:39 contrasta aqueles que retrocedem para a perdição com aqueles que são da fé para a conservação da alma. Desta forma, a fé se apresenta como o meio divinamente ordenado para a apropriação dos benefícios da redenção em Cristo (Romanos 5:1-2).

2. A Origem Divina da Fé: Obra do Espírito de Cristo no Coração dos Eleitos

A CFW enfatiza que esta graça da fé é "obra que o Espírito de Cristo faz no coração deles". Esta afirmação sublinha a iniciativa divina na concessão da fé salvadora. O Espírito Santo, agindo em união com Cristo, é o agente eficaz que opera a fé no íntimo dos eleitos (João 6:63). 2 Coríntios 4.13 alude a este mesmo espírito de fé. Efésios 1.17-20 e Efésios 2.8, novamente, reforçam a ideia de que a fé é resultado do poder de Deus operando nos crentes.

Esta operação do Espírito não implica uma passividade completa do indivíduo, mas sim uma capacitação sobrenatural que inclina o coração a crer (Filipenses 2:13). A fé é, simultaneamente, um ato humano de confiança e aquiescência, e uma obra divina de capacitação (Efésios 3:16-17). Como bem aponta François Turretini, a operação interior da graça é essencial para que os homens recebam o evangelho (confirmar com João 6:44).

A fé, portanto, não é meramente um assentimento intelectual a certas verdades, mas uma obra do Espírito que transforma o coração e capacita o indivíduo a confiar em Cristo para a salvação (Romanos 10:10). Como afirma Herman Bavinck, o Espírito Santo aplica os benefícios adquiridos por Cristo aos crentes (confirmar com Tito 3:5-6).

3. O Meio Ordinário da Fé: O Ministério da Palavra

O texto da Confissão prossegue declarando que a fé é "ordinariamente operada pelo ministério da Palavra". Esta afirmação destaca o papel central da pregação e do ensino da Palavra de Deus como o meio primário pelo qual o Espírito Santo desperta e nutre a fé (1 Coríntios 1:21). Romanos 10.14,17 são clássicos neste ponto, afirmando que a fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo.

A Palavra de Deus, contida nas Escrituras do Antigo e Novo Testamento, é a única regra para nos dirigir na maneira de glorificar a Deus e de nos alegrarmos nele (Salmos 119:105). Ela é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça (2 Timóteo 3:16-17). O ministério da Palavra, portanto, é o instrumento escolhido por Deus para comunicar a verdade que gera a fé (Romanos 10:14).

A igreja, como depositária e arauto dos oráculos de Deus, tem a responsabilidade de apresentar e promulgar a Palavra (1 Timóteo 3:15). A pregação do evangelho é o meio ordenado por Deus para congregar a sua igreja e conduzir os eleitos à comunhão com Cristo (1 Coríntios 1:21).

4. O Aumento e Fortalecimento da Fé: Ministério da Palavra, Sacramentos e Oração

Finalmente, a CFW aponta que a fé é "aumentada e fortalecida por esse ministério [da Palavra], bem como pela administração dos sacramentos e pela oração" (Atos 6:4). A fé, uma vez implantada, não é estática, mas dinâmica, capaz de crescimento e fortalecimento através dos meios de graça providos por Deus (Colossenses 2:6,7).

Ministério da Palavra 

Assim como a Palavra é o meio ordinário para a operação inicial da fé, ela continua sendo essencial para o seu crescimento. A leitura e, especialmente, a pregação da Palavra são meios eficazes para edificar os crentes em santidade e conforto, por meio da fé para a salvação. 1 Pedro 2.2 exorta os crentes a desejarem ardentemente o genuíno leite espiritual para que, por ele, lhes seja dado crescimento para a salvação. Atos 20.32 declara que a palavra da graça de Deus tem poder para edificar e dar herança entre os santificados.

Administração dos Sacramentos

Os sacramentos, como sinais e selos da aliança da graça, também servem como meios de fortalecimento da fé (Romanos 6:3-4). Embora não originem a obra da graça no coração do pecador, pressupõem a presença da fé e aumentam a sua eficácia (Mateus 26:26-28). A participação na Ceia do Senhor, por exemplo, visa a uma comunhão cada vez mais íntima com Cristo, nutrição e vivificação espiritual, e crescente segurança da salvação (João 6:53-58).

Oração

A oração, como comunicação direta com Deus, é outro meio pelo qual a fé é aumentada e fortalecida (Filipenses 4:6-7). Através da oração, os crentes buscam a Deus, reconhecem sua dependência dele e recebem as bênçãos necessárias para o seu crescimento espiritual (Tiago 1:5). Lucas 17.5 registra o pedido dos apóstolos a Jesus: "Aumenta-nos a fé!". Romanos 4.11 associa a fé à justiça obtida pela graça de Deus.

Estes meios de graça atuam em conjunto, sob a operação do Espírito Santo, para nutrir e fortalecer a fé dos crentes ao longo de sua jornada cristã.

Conclusão

A Confissão oferece uma síntese concisa e profunda sobre a fé salvadora. Ela é apresentada, primeiramente, como um dom da graça divina, essencial para a salvação da alma. Em segundo lugar, sua origem é atribuída à obra eficaz do Espírito de Cristo no coração dos eleitos, evidenciando a iniciativa soberana de Deus na salvação. Terceiro, o ministério da Palavra é estabelecido como o meio ordinário pelo qual o Espírito opera a fé, ressaltando a importância da pregação e do ensino bíblico. Por fim, o crescimento e o fortalecimento da fé são vinculados ao contínuo ministério da Palavra, à administração dos sacramentos e à prática da oração, delineando os caminhos pelos quais os crentes são edificados na fé até a consumação da salvação.

A compreensão destes aspectos é fundamental para a vida cristã, pois direciona o olhar para a dependência da graça divina, valoriza o papel central das Escrituras e dos meios de graça instituídos por Deus, e incentiva a busca constante por um crescimento na fé que conduz à salvação eterna.


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