29 dezembro 2024

Cristianismo versus Liberalismo Teológico

O livro "Cristianismo e Liberalismo" foi escrito pelo teólogo e professor presbiteriano norte-americano J. Gresham Machen (1881-1937) e publicado pela primeira vez em 1923. A obra é uma defesa vigorosa do cristianismo ortodoxo em face do liberalismo teológico que ganhava força no início do século XX, apresentando um panorama dos desafios enfrentados pela igreja. O livro é um apelo à fidelidade às Escrituras e à singularidade do Evangelho.

O liberalismo teológico, conforme analisado por J. Gresham Machen, não é uma forma legítima de cristianismo, mas sim uma religião distinta devido às suas diferenças fundamentais em relação à doutrina, à autoridade bíblica, à visão de Deus e do homem, e ao caminho da salvação. Machen argumenta que o liberalismo dilui e descaracteriza a essência do Evangelho, comprometendo a autoridade das Escrituras e negando a centralidade da expiação de Cristo.

As diferenças fundamentais são:

  • Autoridade: O cristianismo se baseia na Bíblia como a Palavra de Deus, a regra infalível de fé e prática. Em contraste, o liberalismo se fundamenta nas emoções e opiniões dos homens, frequentemente reinterpretando as Escrituras à luz da razão e das tendências culturais contemporâneas. A interpretação bíblica liberal é seletiva, adaptando as passagens às normas culturais, o que leva a uma distorção da mensagem.
  • Deus: O cristianismo enfatiza a transcendência majestosa de Deus, o abismo entre criatura e Criador. Deus é imanente ao mundo como seu criador e sustentador, não por ser identificado com ele. O liberalismo, por outro lado, muitas vezes perde de vista essa transcendência, diluindo a divindade de Deus e enfatizando um conceito de Deus como um "Pai" que se adapta às ideias humanas. O liberalismo tende a substituir a revelação especial de Deus por experiências e emoções particulares.
  • Homem: O cristianismo começa com a consciência do pecado. A Bíblia expõe o abismo que separa o homem de Deus por causa do pecado, e a necessidade de um Salvador. O liberalismo, no entanto, tende a minimizar ou ignorar a realidade do pecado, vendo-o como uma imperfeição ou um obstáculo superável pelo esforço humano.
  • Cristo: Para o cristianismo, Jesus é o Salvador, o objeto da fé, que se sacrificou pelos pecados da humanidade. A expiação vicária de Cristo na cruz é central. O liberalismo, por sua vez, vê Jesus como um exemplo moral, um guia, e não como o objeto da fé. A morte de Cristo é vista como um exemplo de autossacrifício a ser imitado, ou como uma demonstração do amor de Deus. A ênfase é na vida de Jesus, e não em sua morte redentora. A singularidade de Jesus, incluindo sua ausência de pecado, é frequentemente negada pelo liberalismo.
  • Salvação: A salvação cristã é um ato de Deus, um dom gratuito recebido pela fé em Cristo. O homem não pode se salvar por seus próprios esforços. O liberalismo, em contraste, tende a ver a salvação como algo alcançado através do esforço humano, pela obediência aos ensinamentos de Cristo ou pela busca de uma vida moral. A fé, para o liberalismo, é vista como "fazer de Cristo o mestre na vida", um tipo de legalismo disfarçado.

As consequências do liberalismo teológico são:


Em essência, o liberalismo teológico, ao substituir os fundamentos do cristianismo por conceitos e valores humanos, cria uma religião totalmente diferente. A fé na humanidade substitui a fé em Deus; a moralidade pessoal e social toma o lugar do socorro divino; e a mensagem centrada na cruz, na expiação e na ressurreição de Cristo é trocada por uma religião de sentimentos, experiências e aspirações humanas. O cristianismo é baseado em um evento histórico, a obra de Deus em Cristo, enquanto o liberalismo se baseia nas emoções variáveis dos homens.


Liberalismo Teológico e a Perda de Foco

A "perda de foco" nas igrejas liberais, mencionada neste link onde abordamos a discussão sobre o liberalismo teológico, refere-se à tendência dessas igrejas de se desviarem da mensagem central do Evangelho, buscando adaptar-se às tendências culturais dominantes com o objetivo de atrair mais membros. Este fenômeno ocorre quando a igreja, em vez de se manter fiel aos princípios e doutrinas bíblicas, prioriza a aceitação e a popularidade dentro da sociedade secular.

Essa adaptação pode levar a igreja a fazer compromissos doutrinários, diluindo ou reinterpretando ensinamentos bíblicos considerados difíceis ou impopulares. Isso se manifesta em várias formas:

  • Interpretação bíblica seletiva: O liberalismo frequentemente adota uma abordagem seletiva das Escrituras, priorizando passagens que se alinham com os valores contemporâneos e negligenciando ou reinterpretando aquelas que desafiam as normas culturais. Veja mais sobre a interpretação seletiva no artigo Interpretação Seletiva no Liberalismo Teológico.
  • Questões éticas e morais: Igrejas liberais tendem a aceitar as normas éticas e morais da sociedade secular, comprometendo a identidade distintiva do cristianismo em questões como sexualidade, vida e justiça social. Isso pode levar à perda da identidade do cristianismo como um movimento que não se conforma com os valores do mundo, mas transforma o mundo com base nos valores do reino de Deus.
  • Pluralismo religioso: O liberalismo teológico pode levar igrejas a promoverem a ideia de que todas as religiões são igualmente válidas, diluindo a exclusividade da mensagem cristã. Essa perspectiva relativiza a importância da fé em Cristo e da necessidade de conversão, que são centrais no cristianismo.
  • Substituição da revelação pela experiência: Em vez de se basear na revelação especial de Deus nas Escrituras, algumas igrejas liberais priorizam as experiências e emoções individuais como determinantes da prática religiosa. Essa abordagem subjetivista pode levar a uma fé centrada no indivíduo em vez de ser centrada em Deus.
  • Teologia da prosperidade e relativismo: Algumas correntes do liberalismo contemporâneo manifestam-se na teologia da prosperidade e no relativismo, enfatizando uma fé centrada no indivíduo em vez da verdade absoluta encontrada nas Escrituras. Isso pode levar a uma compreensão distorcida do propósito da fé cristã, que passa a ser vista como um meio para alcançar sucesso pessoal e material.
  • Perda da mensagem central do Evangelho: A busca por adaptação cultural pode levar a igreja a negligenciar a mensagem central do Evangelho, que inclui a necessidade de arrependimento, a graça de Deus, a importância do sacrifício de Cristo na cruz, a ressurreição, a salvação pela fé, e a vida eterna. Em vez de focar na transformação espiritual através da fé em Cristo, a igreja pode se concentrar em atividades sociais, políticas, ou em temas de autoajuda.
  • Superficialidade: A adaptação às tendências culturais pode resultar em uma abordagem superficial da fé, com ênfase em práticas externas ou em uma espiritualidade subjetiva em detrimento de um relacionamento profundo com Deus e um conhecimento das doutrinas bíblicas.

Em resumo, a "perda de foco" ocorre quando as igrejas liberais priorizam a popularidade e a aceitação cultural em detrimento da fidelidade à mensagem bíblica. Essa adaptação pode levar a compromissos doutrinários e a uma diluição do Evangelho, transformando o cristianismo em uma religião mais palatável para a sociedade secular, mas, ao mesmo tempo, menos fiel ao seu propósito original.


Transformação Social e o Liberalismo Teológico

A diferença na abordagem da transformação social entre o liberalismo e o cristianismo reside em suas perspectivas distintas sobre o mundo e o propósito da vida. O liberalismo tende a priorizar a transformação social e a melhoria das condições de vida neste mundo, enquanto o cristianismo vê este mundo sob a perspectiva da eternidade, priorizando a salvação da alma. O tema sobre a transformação social dentro da perspectiva liberal é um tema que foi citado neste link onde abordamos a discussão sobre o liberalismo teológico.

Aqui estão os principais pontos que evidenciam essa diferença:

  • Foco Primário: 
    • Liberalismo: Tem como foco principal a melhoria das condições sociais e a transformação do mundo presente. A religião, nesse contexto, torna-se um meio para alcançar esses fins, buscando justiça social, igualdade e progresso. A ênfase é em como os princípios religiosos podem ser aplicados para resolver problemas sociais e econômicos imediatos.
    • Cristianismo: Prioriza a salvação da alma e a preparação para a vida eterna. Embora também se preocupe com a justiça social e a melhoria das condições de vida, a perspectiva cristã é que a verdadeira transformação só pode ocorrer quando há uma mudança no coração e na relação com Deus, através da fé em Cristo.
  • Perspectiva do Mundo:
    • Liberalismo: O mundo presente é central para seus pensamentos e ações. O céu, ou a vida após a morte, tem pouca ou nenhuma importância, servindo, no máximo, como uma motivação vaga para a busca de um mundo melhor aqui e agora.
    • Cristianismo: Vê o mundo sob a perspectiva da eternidade, entendendo que a vida presente é passageira e que a verdadeira realidade está na vida futura com Deus. Os valores e as ações são medidos pela perspectiva da eternidade. O mundo presente é visto como um lugar de provação e preparação para a vida eterna.
  • Natureza da Transformação:
    • Liberalismo: Acredita que a transformação social pode ser alcançada por meio do esforço humano, aplicando princípios éticos e promovendo a justiça social. Otimista em relação às instituições humanas, acredita que estas podem ser moldadas para o bem.
    • Cristianismo: Acredita que a verdadeira transformação começa com a regeneração do indivíduo pelo Espírito Santo, um "novo nascimento" que resulta em uma nova vida. A transformação social é vista como um subproduto dessa mudança interior. Os cristãos são mais pessimistas em relação à capacidade das instituições humanas de trazerem mudanças genuínas, acreditando que é necessária uma transformação do caráter humano.
  • Importância da Igreja:
    • Liberalismo: A igreja é vista como uma agente de mudança social, com foco na aplicação prática de princípios éticos para a melhoria do mundo. A unidade da igreja é frequentemente vista como uma questão de cooperação em causas sociais, e não necessariamente em torno de doutrinas específicas.
    • Cristianismo: A igreja é entendida como uma comunidade de crentes unidos em torno da fé em Cristo, que buscam a salvação da alma e a comunhão com Deus e uns com os outros. A transformação social é vista como uma consequência da vida cristã e da aplicação dos princípios do amor e da justiça, mas nunca como o objetivo principal.
  • Evangelismo:
    • Liberalismo: O evangelismo liberal foca em espalhar as bênçãos da civilização e da cultura, sem necessariamente levar os indivíduos a abandonarem suas crenças pagãs. O foco é na melhoria das condições de vida e na promoção de valores éticos universais.
    • Cristianismo: O evangelismo cristão busca a salvação das almas, entendendo que a transformação social genuína só pode ocorrer quando os indivíduos têm um relacionamento correto com Deus através de Cristo. A mensagem principal é a necessidade do novo nascimento e da fé na obra redentora de Jesus.
  • Salvação:
    • Liberalismo: A salvação é vista como algo a ser alcançado através do esforço humano, por meio da obediência aos comandos de Cristo e da prática do bem. A ênfase é na moralidade e no aperfeiçoamento pessoal.
    • Cristianismo: A salvação é entendida como um dom gratuito de Deus, recebido pela fé no sacrifício expiatório de Jesus Cristo na cruz. A obra de Cristo é central para a salvação, que é vista como uma transformação da natureza humana pelo poder do Espírito Santo.

Em resumo, o liberalismo busca uma transformação social através do esforço humano e da aplicação de princípios éticos no mundo presente, enquanto o cristianismo busca a transformação do indivíduo e da sociedade através do poder do Evangelho, vendo este mundo sob a perspectiva da eternidade. O liberalismo prioriza o coletivo e a melhoria das condições de vida, e o cristianismo prioriza o indivíduo e a salvação da alma. Embora o cristianismo se preocupe com a justiça e a melhoria social, o seu foco principal está na relação do homem com Deus e na esperança da vida eterna.


Negação da Doutrina no Liberalismo Teológico

A "negação da doutrina", mencionada neste link onde abordamos a discussão sobre o liberalismo teológico, em contraste com a valorização da doutrina no cristianismo, é um ponto central de divergência entre as duas perspectivas. Enquanto o cristianismo se alegra nas verdades imutáveis que emanam do caráter e da autoridade de Deus, o liberalismo tende a rejeitar ou minimizar a importância das doutrinas.

Aqui estão os principais aspectos da negação doutrinária no liberalismo teológico:

  • Oposição à Doutrina: O liberalismo é caracterizado por uma hostilidade à doutrina, vendo-a como algo rígido, dogmático e limitador da experiência religiosa. Em contraste, o cristianismo se fundamenta em um conjunto de crenças e verdades que são consideradas essenciais para a fé.
  • Rejeição da Autoridade Bíblica: O liberalismo rejeita a autoridade da Bíblia como a palavra infalível de Deus, preferindo basear suas crenças nas emoções, experiências pessoais e na razão humana (Veja o artigo Sentimentalismo no Liberalismo Teológico). Essa abordagem leva a uma subjetividade na interpretação das Escrituras, onde a doutrina é vista como algo flexível e adaptável aos valores culturais contemporâneos.
  • Ênfase na Experiência em Vez da Doutrina: O liberalismo prioriza a experiência religiosa individual em detrimento da doutrina, promovendo a ideia de que a fé é algo que se sente, em vez de algo em que se acredita com base nas Escrituras. Essa abordagem subjetiva leva a uma relativização da verdade e a uma perda de foco na mensagem central do Evangelho.
  • Visão da Fé como "Modo de Vida" em Vez de Crença: O liberalismo frequentemente define a fé como um "modo de vida" em vez de um conjunto de crenças, o que leva a uma negligência da importância da doutrina. Essa abordagem pode levar a uma fé superficial que não tem base em uma compreensão clara da verdade bíblica.
  • Relativismo e Subjetividade: A rejeição da doutrina está ligada ao relativismo, a ideia de que todas as religiões são igualmente válidas (Veja o artigo Relativismo Teológico e o Cristianismo). Nesse contexto, a verdade torna-se uma questão de preferência pessoal ou cultural, em vez de uma realidade objetiva e universal revelada por Deus. Essa visão relativista mina as afirmações exclusivas do cristianismo e leva a uma perda da convicção na verdade.
  • Acomodação à Cultura: O liberalismo busca adaptar a fé cristã aos valores e normas culturais contemporâneas, evitando qualquer conflito ou contradição com as tendências da sociedade. Essa adaptação pode levar ao abandono de doutrinas cristãs consideradas impopulares ou "ultrapassadas", diluindo a essência do Evangelho.
  • Perda do Foco em Deus: Ao rejeitar a doutrina, o liberalismo perde o foco em Deus e em sua revelação nas Escrituras. O resultado é uma religião antropocêntrica, onde o foco se desloca de Deus para o homem, com o objetivo de satisfazer as necessidades e desejos humanos. Para mais detalhes veja o artigo Liberalismo Teológico e a Perda de Foco.
  • Substituição da Fé em Cristo por um Exemplo a Ser Seguido: Em vez de confiar em Cristo como o único salvador, o liberalismo tende a vê-lo como um exemplo a ser seguido, negando a necessidade da expiação vicária e da salvação pela graça. Essa abordagem leva a uma forma de moralismo onde o esforço humano é visto como o caminho para a salvação, em detrimento da fé no sacrifício de Cristo.
  • Relação com o Sentimentalismo: A rejeição da doutrina no liberalismo está muitas vezes relacionada com uma tendência ao sentimentalismo, em que o foco na experiência e nas emoções substituem a importância de um entendimento objetivo da verdade. Isso leva a uma religião mais focada em valores e aspirações humanas do que no Deus da Bíblia, em suas verdades imutáveis. Para mais detalhes veja o artigo Sentimentalismo no Liberalismo Teológico).

Em contraste, o cristianismo histórico valoriza a doutrina como essencial para a fé e prática. A doutrina fornece a base para uma compreensão correta de Deus, do homem, do pecado, da salvação e da vida cristã. Ela também serve como um guia para viver de acordo com a vontade de Deus.

Para o cristianismo, a doutrina não é um conjunto de regras rígidas, mas sim um corpo de verdades que são essenciais para compreender a natureza de Deus, a obra de Cristo, e a maneira como os cristãos devem viver. Essas doutrinas são vistas como imutáveis porque são baseadas no caráter de Deus e na revelação nas Escrituras.

Em resumo, enquanto o cristianismo se apoia nas verdades imutáveis da doutrina, o liberalismo tende a rejeitar a doutrina em favor das emoções, da experiência pessoal e da acomodação à cultura. Essa divergência fundamental tem implicações profundas na forma como cada perspectiva compreende a fé e o propósito da vida.


Sentimentalismo no Liberalismo Teológico

O "sentimentalismo", mencionada neste link onde abordamos a discussão sobre o liberalismo teológico, refere-se à tendência de reduzir a fé a uma religião sentimentalizada, onde o foco se desloca do Deus da Bíblia para os valores humanos, aspirações pessoais e emoções. Essa abordagem prioriza sentimentos e experiências individuais em detrimento da doutrina e da verdade objetiva da Palavra de Deus.

Aqui estão os principais aspectos do sentimentalismo no liberalismo teológico:

  • Foco no amor de Deus como mero sentimentalismo: O liberalismo frequentemente enfatiza o amor de Deus, mas o reduz a um mero sentimentalismo, ignorando outros atributos divinos como a justiça, a ira e a transcendência. Essa visão unilateral de Deus resulta em uma imagem distorcida e incompleta de quem Deus realmente é.
  • Acomodação de Deus às categorias humanas: O sentimentalismo busca acomodar Deus às categorias e valores humanos, projetando as aspirações e valores humanos no divino. Em vez de reconhecer a transcendência de Deus e o abismo que separa o Criador da criatura, essa visão tenta fazer Deus à imagem do homem.
  • Rejeição da doutrina do pecado: O liberalismo sentimentalizado tende a minimizar ou negar a gravidade do pecado, perdendo o senso do abismo que separa a criatura do Criador e da necessidade da expiação vicária de Cristo. A perda da consciência do pecado é uma característica central desse movimento. Para mais detalhes a respeito da negação das doutrinas veja o artigo Negação da Doutrina no Liberalismo Teológico.  
  • Ênfase na experiência e emoções: A experiência pessoal e as emoções são elevadas como norma para a prática religiosa, substituindo a revelação especial de Deus encontrada nas Escrituras. Isso leva a uma interpretação subjetiva e seletiva da Bíblia, onde apenas os textos que ressoam com as emoções e experiências individuais são considerados relevantes. 
  • Substituição da verdade pela experiência: O sentimentalismo pode substituir a busca pela verdade objetiva por uma ênfase na experiência pessoal, onde a fé se torna algo que se sente em vez de algo em que se acredita com base nas Escrituras. Essa abordagem resulta em uma fé subjetiva e sem fundamento sólido na realidade.
  • Moralismo e obras como caminho para a salvação: Em vez de confiar na obra redentora de Cristo, o sentimentalismo pode levar a uma forma de moralismo onde as boas obras e a obediência à lei são vistas como um caminho para a salvação, em detrimento da graça e do sacrifício vicário de Cristo.
  • Interpretação seletiva da Bíblia: O sentimentalismo muitas vezes anda de mãos dadas com a interpretação seletiva da Bíblia, onde os textos são lidos através de um filtro de valores e preferências humanas. Passagens que desafiam ou contradizem as visões sentimentalizadas são ignoradas ou reinterpretadas para se adequarem à visão desejada. Veja o artigo Interpretação Seletiva no Liberalismo Teológico.
  • Foco nos aspectos positivos e reconfortantes: O sentimentalismo busca uma religião que seja meramente alegre, focando nos aspectos positivos e reconfortantes, evitando temas como o pecado, o juízo e a necessidade de arrependimento. Essa abordagem resulta em uma fé superficial que não aborda a realidade do sofrimento e da condição humana.
  • Perda do foco na cruz: O sentimentalismo frequentemente reduz a cruz a um mero exemplo de sofrimento ou amor, em vez de reconhecê-la como o sacrifício vicário de Cristo pelos pecados da humanidade. Isso pode levar a uma perda do significado central da cruz na teologia cristã. Para mais detalhes veja o artigo Liberalismo Teológico e a Perda de Foco.
  • Valores do mundo infiltrados na igreja: Os valores e as aspirações do mundo permeiam as liturgias e homilias da igreja contemporânea, diluindo a mensagem do Evangelho com sentimentalismo e relativismo. Isso se manifesta em muitos programas de entretenimento e em pregadores que buscam agradar o público em vez de apresentar a verdade bíblica.

As consequências do sentimentalismo na fé incluem:

  • Distorção da verdadeira natureza da fé cristã: Ao focar nos sentimentos e valores humanos, o sentimentalismo desvia o foco do Deus da Bíblia e da mensagem central do Evangelho, resultando em uma religião superficial e distorcida.
  • Perda da compreensão do evangelho: O sentimentalismo pode levar a uma perda da compreensão da necessidade da graça de Deus, da expiação de Cristo e da salvação pela fé.
  • Incapacidade de lidar com o sofrimento e a realidade da vida: Ao enfatizar apenas os aspectos positivos da fé, o sentimentalismo deixa as pessoas despreparadas para lidar com o sofrimento, a dor e os desafios da vida.
  • Religião antropocêntrica: O sentimentalismo transforma a religião em uma experiência antropocêntrica, onde o foco se desloca de Deus para o homem, com o objetivo de satisfazer as necessidades e desejos humanos.
  • Fé sem poder transformador: O sentimentalismo resulta em uma fé sem poder transformador, onde as pessoas podem se sentir bem com a religião, mas não experimentam uma mudança real em suas vidas.

Em resumo, o sentimentalismo no liberalismo teológico leva a uma religião que se concentra nos valores e aspirações humanas, em vez de se fundamentar no Deus da Bíblia. Essa abordagem reduz a fé a uma experiência emocional e subjetiva, diluindo as doutrinas centrais do cristianismo e resultando em uma fé sem poder e sem a capacidade de transformar vidas. Para J. Gresham Machen, o sentimentalismo é uma das principais características do liberalismo, que ele via como uma ameaça à fé cristã histórica.


Relativismo Teológico e o Cristianismo

O "relativismo", mencionada neste link onde abordamos a discussão sobre o liberalismo teológico, refere-se à tendência de promover a ideia de que todas as religiões são igualmente válidas e verdadeiras, o que desafia a natureza exclusiva da mensagem cristã. Essa perspectiva relativiza a importância da fé em Cristo e da necessidade de conversão, elementos centrais no cristianismo.

O relativismo teológico se manifesta de diversas formas:

  • Reinterpretação das afirmações exclusivas do cristianismo: O liberalismo frequentemente busca reinterpretar as afirmações exclusivas do cristianismo, como a divindade de Cristo, a necessidade da expiação pelo pecado e a salvação pela fé em Jesus, de modo que estas doutrinas se tornem mais palatáveis ou aceitáveis em um contexto pluralista.
  • Negação da singularidade de Cristo: A crença de que Jesus é o único caminho para Deus é relativizada, apresentando-o apenas como um bom exemplo ou um mestre moral, mas não como o Filho de Deus que morreu e ressuscitou para salvar a humanidade.
  • Promoção do sincretismo religioso: O relativismo pode levar à aceitação e mistura de elementos de diferentes religiões, diluindo a singularidade da mensagem cristã e criando um sistema de crenças eclético e subjetivo.
  • Ênfase na tolerância e inclusão: Embora a tolerância seja um valor importante, o relativismo a leva a um extremo, onde todas as crenças são consideradas igualmente válidas, independentemente de suas afirmações de verdade. Isso pode levar a uma perda da convicção e da distinção da fé cristã.
  • Perda do senso de urgência: A ideia de que todas as religiões levam ao mesmo fim pode diminuir o senso de urgência da pregação do evangelho e da necessidade de conversão, pois não haveria mais uma necessidade de se chegar à verdade através de Cristo, que se revela nas Escrituras.
  • Subjetividade na definição da verdade: O relativismo promove a ideia de que a verdade é uma questão de preferência pessoal ou cultural, e não algo objetivo e universal, conforme afirmado pelo cristianismo histórico. Isso leva a uma pluralidade de “verdades” que são, em última análise, contraditórias.
  • Acomodação à cultura: O relativismo frequentemente busca acomodar o cristianismo aos valores culturais contemporâneos, evitando qualquer conflito ou contradição com as normas sociais vigentes. Isso pode levar à diluição ou abandono de doutrinas cristãs essenciais.

As implicações desse relativismo incluem:

  • Diluição da mensagem cristã: A singularidade e a exclusividade do evangelho são diluídas, tornando o cristianismo apenas mais uma opção religiosa entre muitas. A centralidade de Cristo como o único salvador é diminuída, enfraquecendo o apelo à fé e à conversão.
  • Perda da identidade cristã: Ao promover a ideia de que todas as religiões são igualmente válidas, o relativismo pode levar à perda da identidade distintiva do cristianismo. A fé cristã se torna indistinguível de outras filosofias ou sistemas de crenças.
  • Compromisso com a verdade: A busca pela verdade objetiva é abandonada em favor da tolerância e do pluralismo, o que pode levar a uma fé superficial e sem convicção. A verdade cristã é vista como apenas uma dentre várias possibilidades, e não como a única verdade revelada por Deus.
  • Sincretismo e paganização: A mistura de crenças e práticas de diferentes religiões pode levar a um sincretismo religioso, onde elementos pagãos ou de outras religiões são incorporados ao cristianismo. Isso pode desviar a igreja do seu propósito original de adoração e serviço a Deus.
  • Falta de impacto transformador: Se todas as religiões são iguais, não há razão para crer que o cristianismo tenha poder transformador. Essa crença resulta em uma falta de paixão pela evangelização e pela transformação da sociedade pelos princípios do evangelho.
  • Subjetividade e perda de objetividade: A verdade religiosa passa a ser definida pela experiência pessoal e pelas emoções, em vez de pela revelação divina. Isso resulta em uma fé sem base sólida na realidade objetiva, levando a um subjetivismo e relativismo.

Em resumo, o relativismo teológico, ao promover a ideia de que todas as religiões são igualmente válidas, desafia a natureza exclusiva da mensagem cristã, levando à diluição de suas doutrinas centrais, à perda da sua identidade distintiva e ao compromisso com a verdade objetiva. Essa perspectiva é vista como uma ameaça à fé cristã histórica e como uma forma de acomodar o cristianismo aos valores seculares, em vez de transformar o mundo pela verdade de Deus.


Interpretação Seletiva no Liberalismo Teológico

A "Interpretação Seletiva", mencionada neste link onde abordamos a discussão sobre o liberalismo teológico, refere-se a uma abordagem na qual as Escrituras são interpretadas de maneira parcial e tendenciosa, onde certas passagens são enfatizadas, enquanto outras são negligenciadas, reinterpretadas ou consideradas irrelevantes. Essa forma de leitura da Bíblia leva a uma distorção da mensagem inspirada, pois a seleção e a interpretação dos textos são feitas com base em pressupostos e valores que não são intrínsecos às Escrituras, mas sim influenciados por normas culturais contemporâneas ou preferências pessoais.

Essa abordagem seletiva se manifesta de várias maneiras:

  • Adaptação às normas culturais: O liberalismo tende a adaptar as passagens bíblicas às normas culturais contemporâneas. Isso significa que os textos que entram em conflito com as visões modernas sobre ética, moralidade ou justiça social são frequentemente reinterpretados ou minimizados, enquanto aqueles que se alinham com essas visões são enfatizados.
  • Priorização de certas passagens: Algumas passagens são priorizadas em detrimento de outras. Por exemplo, o Sermão da Montanha pode ser enfatizado como um guia de vida, enquanto os milagres, a expiação vicária de Cristo e outras doutrinas fundamentais podem ser negligenciadas ou reinterpretadas para se adequarem a uma visão mais humanista ou racionalista.
  • Desconsideração do contexto histórico e literário: A interpretação seletiva ignora frequentemente o contexto histórico, cultural e literário das Escrituras. As passagens são retiradas de seu contexto original e aplicadas de maneira que se adequem a uma agenda particular, o que pode levar a interpretações equivocadas e distorcidas.
  • Subjetividade na interpretação: A abordagem seletiva é marcada pela subjetividade, onde o intérprete define quais partes da Bíblia são relevantes ou não. Isso leva a uma relativização da verdade bíblica, onde a interpretação pessoal ou cultural passa a ter mais peso do que a mensagem original.
  • Rejeição da inspiração plena das Escrituras: A interpretação seletiva muitas vezes decorre da rejeição da doutrina da inspiração plena das Escrituras, o que leva a considerar a Bíblia como um livro falível, sujeito a erros. Essa visão permite ao intérprete selecionar e reinterpretar as passagens de acordo com seus próprios critérios.
  • Ênfase na experiência e emoções: A experiência pessoal e as emoções podem substituir a revelação das Escrituras como base para a fé e prática. Isso leva a uma interpretação subjetiva e seletiva dos textos bíblicos, onde apenas aqueles que ressoam com a experiência individual são considerados relevantes.

As consequências dessa interpretação seletiva incluem:

  • Distorção da mensagem: A mensagem original das Escrituras é alterada e distorcida, perdendo seu sentido e propósito.
  • Perda da autoridade bíblica: A Bíblia deixa de ser vista como a Palavra de Deus, a regra infalível de fé e prática, e passa a ser tratada como um livro qualquer, sujeito a erros e interpretações pessoais.
  • Criação de um "cristianismo" à imagem do homem: A fé cristã é adaptada aos valores e preferências humanas, resultando em uma religião que é mais uma criação humana do que uma resposta à revelação divina.
  • Desvio da mensagem central do Evangelho: A mensagem central do Evangelho, que inclui o pecado, a graça, a expiação e a ressurreição de Cristo, é negligenciada ou reinterpretada, resultando em uma fé superficial ou em um moralismo sem poder transformador.

Em resumo, a interpretação seletiva é uma característica do liberalismo teológico que leva a uma distorção da mensagem inspirada das Escrituras, pois os textos são lidos através de um filtro cultural, pessoal ou ideológico, em vez de serem compreendidos em seu contexto original e com base nos princípios hermenêuticos adequados. Essa abordagem resulta em uma fé que é mais uma adaptação às preferências humanas do que uma resposta à revelação de Deus.


19 dezembro 2024

A esquerda e os riscos à Igreja

A esquerda apresenta riscos significativos à igreja e à Bíblia, manifestando-se em várias formas que desafiam os fundamentos da fé cristã. Um dos principais riscos reside na filosofia coletivista da esquerda, que ignora a natureza individual dos seres humanos. Essa visão pode levar a uma subordinação do indivíduo à vontade do Estado, o que é contrário aos princípios de liberdade individual e responsabilidade pessoal que são centrais ao cristianismo.

Além disso, a esquerda moderna, segundo o Dr. Lyle H. Rossiter em seu livro "A Mente Esquerdista", muitas vezes rejeita a competência e a soberania do indivíduo comum, favorecendo a autoridade de elites esquerdistas. Isso se reflete em uma expansão das funções do governo, resultando em leis opressivas e na rendição das liberdades pessoais. Essa tendência coletivista pode corroer o caráter dos indivíduos ao retirá-los de suas responsabilidades e obrigações, levando a uma dependência do governo que é incompatível com a autonomia e a iniciativa defendidas pela fé cristã.

Um dos maiores desafios para a igreja é a negação do pecado por parte do cristianismo progressista, que é uma corrente dentro da esquerda. Essa abordagem separa o que a Bíblia uniu, enfatizando o comportamento gracioso em detrimento da crença na verdade. Ao rejeitar o ensino bíblico sobre o pecado, essa visão também rejeita a necessidade da obra salvífica de Cristo, interpretando a morte de Jesus como algo diferente do pagamento pelos pecados da humanidade.

Outro risco significativo é a ênfase da esquerda na moralidade em detrimento da doutrina. Para a esquerda, o mais importante é como nos comportamos, e não o que cremos. Essa visão pode levar a uma relativização da verdade e a uma desvalorização da teologia, que é essencial para o entendimento e a prática da fé cristã. A esquerda muitas vezes critica a igreja por se preocupar excessivamente com a ortodoxia, confundindo essa preocupação com legalismo e hipocrisia.

A esquerda também apresenta uma visão simplista da fé cristã, retratando-a como uma "jornada" espiritual individual em vez de uma mensagem de salvação revelada por Deus. Isso leva a uma desvalorização da unidade do grupo em prol da busca pessoal, e a uma relativização da verdade, onde nenhuma certeza pode ser afirmada. A esquerda critica a igreja por sufocar o pensamento livre e por não aceitar questionamentos, quando, na verdade, o que a incomoda é a afirmação da igreja de que existem respostas para esses questionamentos.

Outro ponto crítico é a visão da esquerda sobre a igreja, que é vista como uma instituição falha e dispensável, com foco apenas horizontal (relações humanas), negligenciando o propósito vertical da igreja (relação com Deus). Para a esquerda, a igreja deve resolver problemas sociais, mas não priorizar a adoração e a proclamação da palavra de Deus.

Além disso, a esquerda muitas vezes considera a paz como mais importante que o poder, levando a uma abordagem excessivamente igualitária e pacifista que pode comprometer a autoridade da igreja e sua capacidade de defender a verdade. Martinho Lutero já afirmou: "A paz, se possível, mas a verdade, a qualquer preço". A esquerda também tende a justificar comportamentos pecaminosos com base em dificuldades e sofrimentos, relativizando os mandamentos de Deus.

Os desafios que a igreja precisa lutar incluem:

● Defender a verdade bíblica: A igreja deve permanecer firme no ensino da Bíblia sobre o pecado, a salvação em Cristo e a importância da doutrina.

● Promover a responsabilidade pessoal: A igreja deve ensinar a importância da autonomia e da responsabilidade pessoal, evitando a dependência do governo e a relativização das obrigações.

● Valorizar a teologia: A igreja deve defender o valor da teologia como essencial para o entendimento da fé cristã e refutar a ideia de que o comportamento é mais importante do que a crença.

● Proteger a unidade da igreja: A igreja deve promover a unidade do grupo e não a individualidade excessiva, reconhecendo que a verdade revelada por Deus é o fundamento da fé.

● Afirmar o propósito da igreja: A igreja deve reafirmar seu propósito vertical de glorificar a Deus e proclamar sua palavra, além de seu papel horizontal de servir ao próximo.

● Exercer autoridade bíblica: A igreja deve exercer sua autoridade para defender a verdade e condenar o erro, sem ceder a visões igualitárias que enfraquecem sua capacidade de guiar e proteger o rebanho.

● Combater a relativização moral: A igreja deve desafiar a ideia de que dificuldades justificam o pecado, e reafirmar os padrões morais estabelecidos por Deus.

A igreja deve estar vigilante e discernir os riscos que a esquerda apresenta, buscando permanecer fiel à Bíblia e aos seus princípios. A luta contra os desafios apresentados pela esquerda é crucial para a preservação da fé cristã e a integridade da igreja.


11 dezembro 2024

A Importância da Membresia na Igreja

Um Compromisso Bíblico e Transformador 

A membresia em uma igreja local é um elemento central na vivência plena da fé cristã, transcendendo a simples formalidade para estabelecer-se como um pilar fundamental na caminhada espiritual. Ao longo das Escrituras, percebe-se que a membresia não é uma escolha opcional, mas sim um imperativo divino, essencial para aqueles que desejam viver de acordo com os desígnios de Deus.

Primeiramente, a membresia na igreja representa um pacto solene entre o cristão e a comunidade de fé à qual ele pertence. Este compromisso vai além da frequência a cultos ou reuniões; implica submissão à autoridade eclesiástica, responsabilidades mútuas com os irmãos na fé e uma aliança pública de fidelidade a Cristo. A exortação de Hebreus 10:25 reforça a importância de não abandonar a congregação, evidenciando que a membresia não é uma prática opcional, mas uma expressão concreta de obediência à Palavra de Deus.

Além disso, a membresia é um testemunho público de identificação com Cristo e Sua Igreja. Em Mateus 16:18, Jesus afirma que edificará Sua igreja, declarando que nem mesmo as portas do inferno prevalecerão contra ela. Assim, rejeitar ou negligenciar a membresia é, em certo sentido, questionar a sabedoria divina e distanciar-se da estrutura estabelecida por Cristo para sustentar e guiar Seu povo.

Historicamente, a igreja local sempre desempenhou um papel crucial na formação e no crescimento espiritual dos cristãos. O livro de Atos dos Apóstolos apresenta a vida cristã como indissociável da vida em comunidade. A interdependência entre os membros é um tema recorrente, e a membresia oferece uma estrutura para que os dons espirituais sejam exercidos, promovendo edificação mútua. Observe:

  • Em Atos 2:42-47 descreve a dedicação da igreja primitiva ao ensino dos apóstolos, à comunhão, ao partir do pão e às orações. Os versículos 44-45 destacam como os membros compartilhavam tudo o que tinham, provendo uns aos outros conforme a necessidade, ilustrando a interdependência e a edificação mútua: "Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade".
  • Em Atos 4:32-35 novamente vemos a união e a generosidade da igreja primitiva, que agiam como uma só família. Esse texto enfatiza a solidariedade e o apoio mútuo entre os membros: "Da multidão dos que creram, era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nenhuma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum".
  • Em Atos 6:1-7 há o relato que destaca como a igreja local organizava sua comunidade para atender às necessidades específicas de seus membros, como a distribuição de alimentos às viúvas. Esse episódio também demonstra o exercício dos dons espirituais e a colaboração entre os membros para edificar a comunidade: "Escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e mais seis outros. [...] E a palavra de Deus crescia, e o número dos discípulos se multiplicava grandemente em Jerusalém".
  • Em Atos 11:19-26 vemos como a igreja em Antioquia exemplificava a vida comunitária promovendo o crescimento espiritual e a evangelização. O trabalho conjunto de Barnabé e Paulo edificou a comunidade, resultando no primeiro uso do termo "cristãos": "E aconteceu que, por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão; em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos".
  • Em Atos 20:28, Paulo exorta os presbíteros da igreja em Éfeso a cuidarem do rebanho, destacando o papel da liderança espiritual em preservar e fortalecer a comunidade: "Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue".
  • E também vemos em Gálatas 6:10, Paulo destacando a responsabilidade de fazer o bem, "especialmente àqueles que pertencem à família da fé", evidenciando o compromisso coletivo que caracteriza a vida cristã.
Ademais, a membresia estabelece responsabilidades claras e privilégios para os crentes. Entre essas responsabilidades estão: a submissão à liderança espiritual, a participação ativa no discipulado mútuo, o envolvimento em ações de evangelização e o apoio ao ministério da igreja. Paralelamente, a membresia proporciona um ambiente seguro para a disciplina eclesiástica, visando restaurar aqueles que caem em pecado e proteger a pureza da comunidade, conforme descrito em Mateus 18 e 1 Coríntios 5.

Outro aspecto essencial da membresia é a demonstração de uma fé genuína por meio de uma vida transformada. Como ensina Mateus 3:8, "frutos dignos de arrependimento" são a evidência de uma conversão verdadeira. A igreja tem o papel de avaliar essa profissão de fé, garantindo que seus membros vivam de acordo com os princípios bíblicos. Dessa forma, a santidade visível torna-se um pré-requisito para a membresia, contribuindo para a preservação do testemunho cristão no mundo.

Embora os aspectos estruturais da membresia possam variar entre culturas e contextos, o princípio bíblico permanece imutável: a membresia deve refletir um compromisso sério com a fé, a submissão à liderança eclesiástica e o amor pelo corpo de Cristo. Processos como entrevistas, aulas de preparação e listas de membros são adaptações culturais, mas todos visam cumprir os objetivos de discipulado, supervisão espiritual e preservação da pureza da igreja.

Em conclusão, a membresia na igreja local não é meramente um aspecto organizacional, mas uma expressão prática de compromisso com Cristo, submissão à Sua Palavra e amor ao Seu povo. Ela é essencial para o crescimento espiritual, o serviço mútuo e a proclamação do evangelho. Portanto, valorizar e aderir à membresia é um testemunho de obediência e fidelidade ao propósito divino para a igreja, promovendo o fortalecimento da fé individual e coletiva.


27 novembro 2024

O Discipulado Cristão como Caminho de Renúncia e Promessa de Eternidade

O discipulado cristão é um chamado à entrega total a Cristo, demandando compromisso incondicional, abnegação e o primado do amor a Deus sobre todas as coisas. Esse amor se manifesta na obediência aos mandamentos divinos, como nos ensina Jesus: "Se me amais, guardareis os meus mandamentos" (João 14:15). A busca pela santidade, refletida no desejo de viver em conformidade com a vontade de Deus, também é inerente ao discipulado, como exorta o apóstolo Pedro: "Como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento" (1 Pedro 1:15).

A necessidade de negar a si mesmo é um tema fundamental quando se discute o discipulado. O ser humano é advertido a não buscar em si próprio a sabedoria e a força, mas sim em Deus, reconhecendo sua dependência e submissão ao Senhor. Jesus, em seu chamado ao discipulado, afirma: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16:24). A disposição de abandonar tudo por amor a Ele é vista como sinal de um coração verdadeiramente convertido, pronto a seguir o Mestre sem reservas.

Essa renúncia, porém, não se configura como um sacrifício sem propósito. A promessa de um tesouro eterno nos céus, constantemente evocada nas Escrituras, serve como âncora da esperança do cristão em meio às adversidades. Jesus consola seus discípulos, afirmando: "Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corroem, e onde ladrões não escavam, nem roubam" (Mateus 6:19-20). Essa promessa de eternidade, um tesouro reservado nos céus para aqueles que perseverarem na fé, é a força motriz que impulsiona o discípulo em sua caminhada. Jesus assegura: "Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos tiver preparado lugar, voltarei e vos tomarei para mim, para que, onde eu estou, estejais vós também" (João 14:2-3).

A busca pela comunhão com Deus, a alegria em Seus ensinamentos e a certeza da vida eterna são tesouros incomparáveis, que transcendem qualquer bem material ou prazer passageiro. O apóstolo Paulo, experienciando as riquezas da vida em Cristo, declara: "Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo" (Filipenses 3:7-8).

Ser discípulo de Cristo não se limita à mera aceitação de um conjunto de doutrinas. É uma transformação radical da vida, moldada pelos ensinamentos do Mestre. A obediência aos mandamentos divinos, a busca pela santidade e o amor ao próximo são elementos indissociáveis dessa jornada. O próprio Jesus resume o mandamento principal: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mateus 22:37-39).

O discipulado cristão é um caminho de constante aprendizado e aperfeiçoamento, tendo Cristo como modelo e meta. É um convite a reconhecer as próprias falhas, arrepender-se dos pecados e confiar na graça de Deus para promover a transformação. O apóstolo Paulo nos encoraja a essa busca incessante: "Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Filipenses 3:14).

Em síntese, o discipulado cristão, embora exija renúncia, oferece como recompensa a promessa de uma vida plena e eterna em comunhão com Deus. A autonegação, a obediência aos mandamentos divinos, a busca pela santidade e a esperança na vida eterna são pilares que sustentam essa caminhada da fé. É um chamado à transformação, tendo Cristo como modelo e a glória de Deus como objetivo final, como exorta o apóstolo Paulo: "E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens" (Colossenses 3:23).


20 novembro 2024

Dificuldades e soluções na prática da Fé Cristã

Há uma infinidade de desafios que os cristãos contemporâneos enfrentam ao viver sua fé em um mundo complexo e em constante mudança. Neste artigo, vamos tentar explorar essas dificuldades com profundidade, oferecendo uma perspectiva bíblica e teológica para a compreensão e superação desses obstáculos.

A tarefa de conciliar os ensinamentos bíblicos, escritos em contextos históricos e culturais distintos, com a realidade do século XXI é um dos desafios mais urgentes. A rápida transformação social, os avanços científicos e o questionamento constante de valores tradicionais colocam os cristãos em uma posição delicada, exigindo discernimento e sabedoria para navegar por essas complexidades sem comprometer a integridade de sua fé.

Há também as dificuldades internas que os cristãos enfrentam, como a luta contra o pecado, a persistência de dúvidas e o sofrimento inerente à condição humana. A natureza pecaminosa, mesmo após a conversão, torna a obediência a Deus um desafio constante. Dúvidas sobre a veracidade de experiências espirituais, a interpretação de passagens bíblicas complexas e a aparente ineficácia da oração em certos momentos também podem abalar a fé do cristão. O sofrimento, seja por doença, perseguição ou crises pessoais, levanta questões sobre a bondade e o cuidado de Deus, levando alguns a questionar sua fé.

A proliferação de falsos ensinamentos, seitas e distorções da mensagem cristã também representa um obstáculo significativo. A teologia da prosperidade, com sua ênfase em riqueza material como sinal de bênção divina, e a proliferação de práticas supersticiosas sem base bíblica, como a "quebra de maldições", são exemplos de desvios que seduzem muitos, levando-os para longe da verdadeira fé.

A diversidade de denominações e igrejas, com suas diferentes interpretações da Bíblia e práticas distintas, também gera dificuldades para os cristãos. A busca pela unidade (ecumenismo) esbarra em desafios teológicos e práticos, especialmente na definição de uma base comum para a comunhão autêntica. O movimento dos "desigrejados", que rejeitam não somente a comunhão mas a estrutura institucional da igreja, também representa um desafio à visão tradicional de comunidade cristã.

Também precisamos considerar a necessidade de integrar a fé com a razão, a ciência e a cultura, que permanece como uma tarefa complexa para os cristãos. A teoria da evolução, por exemplo, coloca em dúvida a narrativa bíblica da criação, gerando tensões entre a fé e o conhecimento científico. A interação com diferentes culturas e sistemas de valores exige dos cristãos discernimento para preservar a integridade de sua fé sem se fechar ao diálogo e à compreensão do outro.

As dificuldades na prática da fé cristã são, portanto, multifacetadas e estão por toda parte e afetam diferentes áreas da vida, demandando dos cristãos uma fé resiliente, um conhecimento sólido das Escrituras e um compromisso inabalável com a verdade de Deus. 

E qual a solução?

Não podemos oferecer uma solução única e abrangente para as dificuldades na prática da fé cristã, mas, sim, um conjunto de princípios, orientações e atitudes que podem auxiliar os cristãos a navegar por esses desafios.

1. A importância do estudo aprofundado da Bíblia. O conhecimento profundo das Escrituras é fundamental para a base da fé e da prática cristã. O estudo constante da Bíblia permite aos cristãos compreenderem melhor o contexto histórico e cultural dos textos sagrados, evitando distorções ou interpretações equivocadas. Além disso, esse estudo oferece respostas para questões complexas e desafiadoras, orientando os fiéis a discernir a vontade de Deus para suas vidas, tomar decisões sábias e alinhar suas ações aos princípios divinos.

2. O valor da oração como comunicação com Deus. A oração é um canal indispensável de conexão entre o cristão e Deus. Por meio dela, os fiéis apresentam suas necessidades, ansiedades e dúvidas, encontrando consolo e direção. A prática da oração também é um momento de gratidão, no qual se reconhece a soberania divina e as bênçãos recebidas. Assim, a oração fortalece a fé, aprofunda a intimidade com Deus e ensina os cristãos a confiar em Sua providência e descansar em Suas promessas.

3. A resiliência diante do sofrimento como marca da fé. O sofrimento é parte inevitável da caminhada cristã, mas também uma oportunidade de crescimento espiritual. Enfrentá-lo com resiliência permite aos cristãos dependerem mais profundamente de Deus e confiarem em Seus propósitos, mesmo em meio à dor. A Palavra de Deus e a comunhão com outros cristãos oferecem força e encorajamento, ajudando os fiéis a perseverarem na fé enquanto mantêm o foco na esperança da vida eterna e na vitória final em Cristo.

4. A luta contra o pecado e o relativismo cultural. A batalha contra o pecado é constante na vida cristã, exigindo o reconhecimento da necessidade de arrependimento e transformação interior, operada pelo Espírito Santo. Permanecer fiel aos princípios bíblicos é essencial, especialmente em um mundo onde o relativismo cultural busca diluir a verdade absoluta da Palavra de Deus. Os cristãos são chamados a buscar a santificação em todas as áreas da vida, obedecendo aos mandamentos de Deus e cultivando virtudes cristãs.

5. O discernimento em meio a falsos ensinamentos. Diante da disseminação de falsas doutrinas e práticas supersticiosas, os cristãos devem estar preparados para discernir a verdade. Isso requer um conhecimento sólido das Escrituras, que permita identificar e refutar ensinamentos que se desviem da revelação divina. Além disso, é necessário buscar a orientação do Espírito Santo para distinguir entre a verdadeira fé e os enganos, bem como participar de comunidades cristãs comprometidas com a pregação da sã doutrina.

6. A busca pela unidade na diversidade da igreja. A diversidade de denominações e interpretações bíblicas não deve ser motivo de divisão entre os cristãos. Há aqueles que têm a tendência de elevar um ensino doutrinário a um patamar tão elevado que qualquer um que discorde é taxado de réprobo, descrente e destinado ao inferno. No entanto, será essencial priorizar os fundamentos da fé cristã, como a Trindade, a divindade de Cristo, a salvação pela graça e a autoridade das Escrituras (essas doutrinas são essenciais a fé cristã e são inegociáveis!), enquanto se promove o amor e o respeito em questões secundárias tais como a forma de se batizar, a forma de governar a igreja ou como se dará a volta de Cristo. A unidade entre os cristãos fortalece o testemunho do Evangelho e contribui para a expansão do Reino de Deus.

7. A integração entre fé, razão, ciência e cultura. A fé cristã não está em oposição à razão, à ciência ou à cultura. Pelo contrário, ela busca dialogar de forma construtiva e crítica com essas áreas, contribuindo para uma compreensão mais ampla do mundo. Os cristãos são encorajados a estudar as descobertas científicas, participar dos debates culturais e apresentar sua fé de maneira racional e relevante. Ao fazer isso, tornam-se agentes de transformação, levando os princípios do Evangelho às diversas esferas da sociedade e promovendo justiça, paz e o bem comum.

As soluções propostas acima não são fórmulas mágicas ou respostas fáceis para problemas complexos. São, antes, um convite a uma vida de constante aprendizado, busca por Deus, compromisso com a verdade e ação transformadora no mundo. A jornada cristã é desafiadora, mas, através da graça de Deus e da obediência à Sua Palavra, os cristãos podem superar as dificuldades e viver uma vida plena de significado e propósito.


15 novembro 2024

A Subscrição Confessional aos Padrões de Westminster

A subscrição confessional representa a adesão formal e consciente a um conjunto específico de doutrinas e crenças baseadas nas Escrituras Sagradas, geralmente expressas em credos e confissões, como os Padrões de Westminster (Confissão de Fé e seus catecismos Maior e Breve). Essa adesão vai além do simples acordo intelectual, implicando um compromisso pessoal com a verdade revelada na Palavra de Deus e com a comunidade que a confessa. 

A aceitação aos símbolos de fé parte do pressuposto de que a fé cristã não é uma construção individual, mas sim um corpo de doutrinas revelado por Deus nas Escrituras. A subscrição a um credo ou confissão significa concordar com a interpretação da Escritura expressa naquele documento, reconhecendo a autoridade da igreja na definição da fé. A igreja, guiada pelo Espírito Santo, tem a responsabilidade de interpretar e transmitir a fé cristã de forma fiel. A subscrição confessional, nesse contexto, significa reconhecer essa autoridade e submeter-se ao ensino da igreja.

A subscrição confessional implica um compromisso de ensinar e viver de acordo com as doutrinas professadas nas Escrituras Sagradas, tanto na vida pessoal quanto no ministério. Pastores e líderes que subscrevem a um credo ou confissão assumem a responsabilidade de transmitir a fé de forma íntegra às próximas gerações.

Filosofias que Levam à Rejeição da Confessionalidade

É importante reconhecer que existem objeções à ideia de se subscrever a credos e confissões. Podemos inferir algumas correntes "filosóficas" dentro das igrejas que podem contribuir para a rejeição da confessionalidade:

● Individualismo: A ênfase na experiência pessoal e na liberdade individual pode levar à desvalorização da tradição e da autoridade da igreja na interpretação das Escrituras. Dentro das igrejas é comum se aceitar o movimento "nenhum Credo senão Cristo", que defende a primazia da experiência individual sobre qualquer credo formal. Essa visão pode levar a uma "privatização das convicções", onde cada indivíduo se sente no direito de interpretar as Escrituras à sua maneira, sem se submeter a qualquer autoridade externa.

● Relativismo: A crença de que não existem verdades absolutas e que a verdade é relativa a cada indivíduo ou cultura pode minar a importância de credos e confissões como expressões de verdades objetivas. Se a verdade é relativa, a necessidade de definir e defender um conjunto específico de doutrinas se torna questionável.

● Pragmatismo: A ênfase na utilidade prática e nos resultados imediatos pode levar à rejeição de credos e confissões, que podem ser vistos como teóricos e irrelevantes para a vida cristã. A busca por métodos "inovadores" de evangelização e crescimento da igreja pode levar à negligência da doutrina e da tradição em favor de estratégias que prometem resultados rápidos e visíveis.

● Anti-intelectualismo: A desconfiança da razão e da teologia sistemática pode levar à rejeição de credos e confissões como expressões de um cristianismo intelectualizado e distante da experiência do crente comum. Os púlpitos das igrejas estão fazendo uso de "slogans vagos" em detrimento de uma compreensão precisa das Escrituras. Essa tendência sugere uma preferência por mensagens simples e emocionais em detrimento do estudo aprofundado da doutrina.

A Confessionalidade como Ordenança Bíblica

Aderir a um conjunto de doutrinas expressas em credos e confissões, implica uma convicção profunda e um compromisso com essas mesmas doutrinas. Destacamos que a confessionalidade é, antes de tudo, uma ordenança bíblica, enraizada na própria natureza da fé cristã.

Quero chamar a atenção para o texto de Efésios 4:14 que diz: "Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente". Paulo fala sobre a importância de amadurecer na fé e ser bem fundamentado na verdade do Evangelho. Ele usa a metáfora de "vento de doutrina" para descrever falsas crenças ou ensinamentos que podem desviar os cristãos do caminho de Deus. Esses "ventos" são apresentados como estratégias astutas e enganosas que confundem e enfraquecem aqueles que não têm raízes firmes na Palavra de Deus.

Embora a expressão "vento de doutrina" seja específica de Efésios 4:14, outros versículos abordam temas similares, alertando contra falsos ensinamentos e instabilidade espiritual. Colossenses 2:8 alerta para termos "...cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo". Este versículo alerta contra doutrinas baseadas em tradições humanas e filosofias contrárias à verdade de Cristo. 2 Timóteo 4:3-4 fala de um período de tempo "... em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo coceira nos ouvidos, amontoarão para si mestres conforme as suas próprias cobiças; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas". Aqui, Paulo prevê que as pessoas buscarão ensinamentos que satisfaçam seus desejos, rejeitando a verdade bíblica.

A Confessionalidade como Elo da Unidade na Igreja

A confessionalidade desempenha um papel crucial na promoção da unidade da Igreja. Podemos argumentar que a confissão da mesma fé, expressa em documentos como os Padrões de Westminster, serve como um eficiente elo que une os cristãos em diferentes tempos e lugares.

1. Padrão Comum de Fé

Unindo a Igreja Através dos Tempos: A confessionalidade conecta a igreja do presente com a igreja do passado, estabelecendo um fio condutor de fé que atravessa gerações. A subscrição a um credo histórico, como os Padrões de Westminster, significa unir-se à longa linhagem de cristãos que confessaram a mesma fé ao longo dos séculos. Essa conexão com a tradição da igreja oferece um senso de identidade e pertencimento, fortalecendo a unidade do corpo de Cristo.

Base para o Diálogo e a Comunhão: os credos e confissões reformados fornecem um vocabulário comum e um conjunto claro de doutrinas, facilitando o diálogo e a comunhão entre cristãos de diferentes origens e contextos. Em um mundo marcado por diferentes interpretações da Bíblia, os credos e confissões servem como um ponto de referência objetivo para o diálogo teológico. Ao concordarem com um padrão comum de fé, os cristãos podem se concentrar nas áreas de convergência, promovendo a compreensão mútua e o respeito, mesmo em meio a divergências.

2. Prevenção da Fragmentação Doutrinária

● Proteção Contra Erros e Heresias: A confessionalidade serve como um "muro de proteção" contra a proliferação de erros e heresias, preservando a pureza da fé cristã. Os credos e confissões definem os limites da ortodoxia, identificando e rejeitando ensinos que se desviam da verdade bíblica. Essa função de delimitação doutrinária é crucial para a unidade da igreja, pois impede a fragmentação causada pela disseminação de falsas doutrinas.

● Combate à Subjetividade e ao Individualismo: A confessionalidade se opõe à tendência individualista de interpretar a Bíblia de forma isolada e subjetiva, promovendo uma compreensão da fé baseada na tradição e na autoridade da igreja. Ao invés de cada um criar sua própria versão do cristianismo, a confessionalidade convida os cristãos a se submeterem a um padrão de fé estabelecido pela igreja, guiada pelo Espírito Santo. Essa submissão voluntária à autoridade da igreja na interpretação da Bíblia é essencial para a unidade da fé e a integridade doutrinária.

3. Clareza e Coerência do Ensino

● Base para a Pregação e o Ensino: A confessionalidade fornece uma base sólida para a pregação e o ensino da Palavra de Deus, garantindo a fidelidade ao ensino bíblico e a coerência doutrinária. Pastores e líderes que subscrevem a um credo ou confissão se comprometem a ensinar de acordo com os princípios estabelecidos nesses documentos, evitando distorções ou modismos teológicos.

● Formação de Cristãos Maduros: A confessionalidade contribui para a formação de cristãos maduros, que conhecem e compreendem a fé cristã de forma profunda e sistemática. Credos e confissões, como os Padrões de Westminster, oferecem um guia para o estudo da Bíblia, ajudando o cristão a conectar as diferentes doutrinas e a formar uma visão abrangente da fé. Essa compreensão aprofundada da fé é essencial para resistir às falsas doutrinas, discernir a vontade de Deus e viver uma vida cristã autêntica.

A confessionalidade, quando fundamentada na Escritura e guiada pelo Espírito Santo, é um instrumento essencial para a saúde, crescimento e unidade da Igreja. Ao fornecer um padrão comum de fé, proteger contra a fragmentação doutrinária e promover a clareza e coerência do ensino, a confessionalidade contribui para a edificação de um corpo unido em Cristo, testemunhando a verdade do Evangelho ao mundo.

Benefícios da Leitura dos Padrões de Westminster

A leitura dos Símbolos de Fé de Westminster oferece uma série de benefícios para o cristão, enriquecendo a sua compreensão espiritual, obediência e experiência. Como um conjunto de documentos confessionais, eles oferecem uma rica fonte de instrução e orientação para o cristão.

1. Aperfeiçoamento devocional

● O conhecimento preciso de Deus e da Sua obra, apresentado nos Padrões, aprimora as devoções e leva a melhores respostas de louvor e adoração.
● As doutrinas dos Padrões, por serem as doutrinas da Escritura, nutrem a devoção com a plenitude da verdade.
● A linguagem utilizada nos Padrões é rica em significado espiritual e desperta emoções religiosas, guiando para uma vida devocional profunda.

2. Compreensão bíblica profunda

● Os Padrões de Westminster são declarações fiéis do ensino bíblico, baseadas em princípios e ensinamentos extraídos de toda a Escritura, e não apenas de textos isolados.
● As provas bíblicas presentes nos Padrões convidam à reflexão cuidadosa sobre como os textos se relacionam com o assunto em questão e como devem ser entendidos.
● A leitura dos Padrões ajuda a pensar biblicamente, fornecendo uma estrutura sólida e declarações biblicamente corretas.

3. Clareza e precisão doutrinária

● Os Padrões combatem a superficialidade do cristianismo popular, que se contenta com slogans vagos em vez de uma compreensão precisa das Escrituras.
● As declarações dos Padrões são precisas e equilibradas, destacando a essência do Evangelho e separando-a de qualquer resquício de erro humano.
● A Assembleia de Westminster, por se beneficiar de séculos de reflexão sobre as Escrituras, formulou o ensino bíblico com clareza, precisão e riqueza.

4. Abordagem prática e detalhada

● Os Padrões apresentam um guia para a vida cristã, delineando as crenças que devem fundamentar a conduta prática do cristão.
● A explicação e aplicação detalhada dos Dez Mandamentos, encontrada no Catecismo Maior, por exemplo, oferece um manual prático para a vida diária.
● A abordagem detalhada dos Padrões abrange áreas de controvérsia, oferecendo um tratamento abrangente dos ensinamentos da Bíblia e ajudando a compreender o que a Escritura realmente ensina.

5. Estrutura organizada e sistemática

● Os Padrões organizam as doutrinas bíblicas de forma sistemática, proporcionando clareza e ajuda a organizar as doutrinas bíblicas na mente, aprofundando a compreensão da fé.
● A estrutura lógica dos Catecismos, em particular, fornece um quadro completo de entendimento.
● A leitura dos Padrões ajuda a evitar uma compreensão nebulosa e fragmentada das doutrinas bíblicas.

6. Compartilhamento eficaz da fé

● Os Padrões, apesar de sua profundidade e precisão, são acessíveis a pessoas sem treinamento teológico, tornando a verdade concisa e fácil de compartilhar.
● A leitura dos Padrões facilita a explicação das crenças cristãs e fornece um contexto objetivo para testemunhar a verdade.
● Os Padrões são vitais para a transmissão da verdade para a próxima geração, garantindo que a fé seja passada de forma íntegra e fiel.

Conclusão

Os Padrões de Westminster oferecem uma base sólida para o crescimento espiritual do cristão, aprofundando seu conhecimento das Escrituras, aprimorando suas devoções, fortalecendo sua fé e equipando-o para viver e compartilhar a verdade de forma eficaz.

A subscrição confessional, como um ato de compromisso com a verdade revelada e com a comunidade que a confessa, desempenha um papel fundamental na unidade, na pureza doutrinária e na fidelidade da igreja. No contexto da Igreja Presbiteriana do Brasil, a subscrição aos Padrões de Westminster é um elemento essencial que define sua identidade, sua doutrina e sua missão.


13 novembro 2024

A Vocação Eficaz

Estudo proferido na Igreja Presbiteriana do Ibura, em Recife/PE. 

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
Capítulo X. Da Vocação Eficaz 


Na seção I do capítulo 10, temos o seguinte:

Seção I. Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido chamar eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito, no tempo por ele determinado e aceito, tirando-os daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza para a graça e salvação, em Jesus Cristo. Isso ele faz iluminando o entendimento deles, espiritual e salvificamente, a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes o coração de pedra e dando-lhes um coração de carne, renovando as suas vontades e determinando-as, pela sua onipotência, para aquilo que é bom, e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça.

A Confissão de Fé de Westminster inicia este capítulo afirmando que a vocação eficaz é direcionada exclusivamente àqueles que Deus predestinou para a vida, ou seja, aos Seus eleitos (Romanos 8:30; Efésios 1:4,5). Essa convocação se manifesta no tempo preordenado por Deus, e se concretiza por meio da Sua Palavra e do Seu Espírito (2 Timóteo 1:9; Romanos 10:17; João 6:63). É crucial notar que a Confissão distingue a vocação externa, direcionada a todos que ouvem a pregação do evangelho, da vocação interna e eficaz, operada pelo Espírito Santo e direcionada somente aos eleitos (Mateus 22:14; Atos 16:14). No entanto, o chamado interno só ocorre por causa do chamado externo (Romanos 10:14,15).

O texto da Confissão prossegue descrevendo o processo da vocação eficaz afirmando que Deus, através do Seu Espírito, atua nos corações dos eleitos, iluminando seus entendimentos para que compreendam as coisas de Deus para a salvação (1 Coríntios 2:12; Efésios 1:17,18). Essa iluminação espiritual é essencial, pois o homem, em seu estado natural, é espiritualmente cego e incapaz de discernir as verdades espirituais (João 6:44; 2 Coríntios 4:3,4). A Escritura confirma essa necessidade da ação divina para a compreensão das coisas espirituais: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14).

Deus também opera uma transformação profunda no coração do eleito, removendo o coração de pedra, insensível à Sua lei e ao Seu amor, e concedendo um coração de carne, capaz de amar e obedecer a Deus (Jeremias 31:33; 2 Coríntios 5:17). A Confissão usa a linguagem de Ezequiel 36:26,27 para descrever essa transformação: "Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro de vós espírito novo". Essa mudança radical é comparada nas Escrituras a um novo nascimento (João 3:3-6) e a uma nova criação (Efésios 2:10), ilustrando a profundidade e a abrangência da obra de Deus na vida do eleito.

A partir dessa nova disposição do coração, o eleito é capacitado a responder ao chamado de Deus (Efésios 2:4,5). Sua vontade, antes escravizada pelo pecado, é renovada e direcionada para o bem pela onipotência divina (Romanos 6:17,18; Romanos 8:2). Deus o atrai eficazmente a Cristo, de forma que ele vem livre e espontaneamente, movido pela graça que lhe foi concedida (João 6:37,44; Salmos 110:3). A Confissão enfatiza que essa resposta, embora livre e espontânea, só é possível pela graça operante de Deus, conforme expresso em Filipenses 2:13: "Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade."

Podemos tirar algumas conclusões:

1. O papel da pregação do Evangelho. Vemos a importância da pregação do Evangelho na Vocação Eficaz. Deus ordenou que a Igreja pregasse o Evangelho a todos, pois "a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (Romanos 10:17). Deus, em Sua soberania, usa a pregação para que os eleitos ouçam o Seu chamado. A pregação é o instrumento usado pelo Espírito Santo para efetuar a regeneração. No entanto, uma mesma pregação pode operar, pelo Espírito Santo, o chamado eficaz em alguns dos ouvintes, enquanto outros permanecem com seus corações insensíveis (Atos 13:48; Romanos 9:18). Paulo falando aos coríntios mostra como o mesmo evangelho pode ter efeitos diferentes, dependendo da ação soberana de Deus. Para os crentes, “cheiro de vida para a vida”; já para os incrédulos, “cheiro de morte para a morte” (2 Coríntios 2:15,16).

2. A Soberania de Deus na Salvação. A vocação eficaz é uma obra sobrenatural de Deus, pela qual Ele chama eficazmente os Seus eleitos à salvação. Essa obra se baseia em Sua livre e soberana graça, e não em qualquer mérito ou previsão do homem. Romanos 9:16 declara: "Logo, não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia". Deus é o único agente dessa obra, operando por meio do Seu Espírito e da Sua Palavra.

3. A Passividade Humana na Regeneração. O homem, em seu estado natural, é totalmente passivo na vocação eficaz, sendo incapaz de contribuir para sua própria salvação. É somente após ser vivificado e renovado pelo Espírito Santo que ele se torna capaz de responder ao chamado e abraçar a graça oferecida. Essa doutrina, embora possa ser questionada por alguns, encontra respaldo nas Escrituras, que afirmam a depravação total do homem e a sua incapacidade de buscar a Deus por si mesmo. Efésios 2:1-5 descreve o estado de morte espiritual do homem antes de ser vivificado por Cristo, e Romanos 3:10-12 declara que "não há justo, nem um sequer".

4. A Transformação Radical do Eleito. A vocação eficaz resulta em uma mudança completa na vida do eleito, afetando seu intelecto, suas emoções e sua vontade. Ele passa a ter uma nova compreensão das coisas de Deus, um novo amor por Ele e um novo desejo de obedecer à Sua vontade. Essa transformação não se limita a uma mudança superficial de comportamento, mas é uma mudança radical de natureza, operada pelo poder do Espírito Santo. O eleito, antes escravo do pecado, se torna um servo de Deus, livre para amar e obedecer ao seu Senhor. A Confissão de Fé de Westminster apresenta a doutrina da vocação eficaz como uma doutrina essencial da fé cristã, fundamentada nas Escrituras Sagradas e crucial para a compreensão da obra salvífica de Deus na vida do homem.

11 novembro 2024

Confessionalismo e uma Igreja Florescente

Algumas pessoas estão inclinadas a pensar que o confessionalismo tem um efeito sufocante na igreja. Elas presumem que a adesão a credos e confissões baseados na Bíblia inibe a vitalidade ou a liberdade. Para elas, a igreja tem mais a ver com relacionamento e desconfiam de coisas mais formais e menos subjetivas. Outras, querem ser tão flexíveis e inclusivas quanto possível, para atrair a outros, e minimizam a doutrina. Esses preconceitos sobre o confessionalismo são válidos? Eles são consistentes com as Escrituras? É notável, de fato, a frequência com que o crescimento da fé está ligado ao crescimento pessoal e coletivo dos crentes nas Escrituras.

Adotar e usar uma confissão de fé bíblica não garante que a vida de uma congregação específica seja tão saudável quanto deveria ser. Será, no entanto, para proteger contra certas doenças espirituais que vêm do falso ensino. Em Efésios 4, o apóstolo Paulo nos diz que a igreja deve florescer por meio da verdade. Ela é destinada a ser edificada no amor, quando falamos a verdade em amor (Efésios 4:13 e 15). Devemos todos chegar “à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo”. Mas isso não pode acontecer se formos como meninos, “levados em roda por todo o vento de doutrina”. Ao “falar a verdade em amor” a igreja deve crescer “em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4:14-15).

Quanto menos a verdade da Bíblia confessamos, menos vitalidade temos. Os cristãos devem resistir ao erro e manter a verdade e assim andar em Cristo, sendo arraigados, edificados e estabelecidos na fé (Colossenses 2:6-7). A Bíblia não é minimalista no modo como declara a verdade e nem nós deveríamos ser. Uma confissão completa de fé convida os cristãos a explorar e valorizar o panorama da verdade de Deus e tornarem-se maduros em seu entendimento. Uma confissão ajuda a igreja a cumprir sua comissão de fazer discípulos espiritualmente maduros (Mateus 28:20).

A Importância das Confissões

Deus nos deu a Sua Palavra para que tenhamos a informação que Ele quer que saibamos. Uma confissão de fé é colocarmos em nossas próprias palavras o que entendemos que Deus está dizendo em Sua Palavra. Algumas pessoas dizem que não têm credo, a não ser a Bíblia. Mas elas ainda têm sua própria interpretação do que a Bíblia ensina. Elas acreditam ou não acreditam na Trindade, por exemplo, ou na justificação somente pela fé. Elas simplesmente não escreveram suas crenças de forma sistemática. Elas têm um credo, só que não é um que está publicamente disponível.

Enquanto isso, todos os tipos de hereges podem citar a Bíblia. Então, se nos restringimos a usar apenas as palavras da Escritura, isso seria uma maneira inadequada de declarar a verdade. Quando alguém cita a Escritura, é sempre legítimo perguntar: “O que você quer dizer com isso?” Dizer: “Eu só acredito na Bíblia” não tem sentido, a menos que isso seja definido mais adiante. Quando uma igreja anota seu entendimento do que a Bíblia ensina, ela permite que qualquer um veja em que ela acredita, e também ajuda a igreja a alcançar clareza em sua missão de dizer ao mundo o que a Palavra de Deus diz. É por isso que Judas nos exorta a “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3). Paulo encarregou Timóteo de manter firme o “modelo das sãs palavras” e de guardar “o bom depósito” (2 Timóteo 1:13-14).

Anthony Tuckney (1599-1670) desempenhou um papel fundamental na formação da Confissão de Fé de Westminster. Ele usa essas palavras de 2 Timóteo 1:13 para explicar o valor das confissões. Ele define confissões como uma forma de estabelecer a verdade de Deus de uma maneira ordenada. Elas reúnem as verdades que estão espalhadas por toda a Escritura. Ele então explica alguns dos benefícios de uma confissão.

Confissões nos Ajudam a Crescer na Verdade

Modelos de sãs palavras têm sido usados como declarações, não apenas daquilo em que nós mesmos acreditamos, mas também daquilo que pensamos ser o que todos deveriam crer. Também desejamos e exigimos que todos aqueles com quem nos unimos na comunhão mais próxima da igreja devem professá-las ou pelo menos não contradizê-las abertamente. Foi assim com os apóstolos no que eles decidiram em Atos 15, e é com as igrejas e suas confissões até hoje; e assim poderá ser sempre. Quando surgem controvérsias, elas podem ser melhor compreendidas e resolvidas com a ajuda de tais confissões. Elas também podem ser um bom depósito (2 Timóteo 1:14) a ser dado à posteridade, como legados ou heranças da fé de seus antepassados.

Confissões nos Ajudam a Crescer em União

As confissões não são apenas emblemas de nossa comunhão na igreja cristã, mas também são de grande ajuda e podem favorecê-la. Por este meio, as divisões problemáticas podem ser evitadas e a paz da igreja melhor preservada. Este é um benefício quando todos professamos a mesma verdade, e todos dizemos “a mesma coisa” e somos “unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer” (1 Coríntios 1:10).

Confissões nos Ajudam a Crescer em Paz

O fracasso em se manter mais próximo de tais “modelos de sãs palavras” permitiu a cada um falar e escrever as fantasias vãs de seu próprio coração e espalhar as mais terríveis heresias e blasfêmias com impunidade. Isso nos despedaçou e nos dividiu. Que o Senhor em misericórdia cure rapidamente esses cortes e rupturas. Um meio especial para curar isso é manter firme o modelo de sãs palavras (2 Timóteo 1:13).

Confissões nos Ajudam a Crescer em Força

Os apóstolos formularam suas decisões para ajudar aqueles que eram fracos (Atos 15:24) e uma confissão faz isso também. As verdades espalhadas por toda a Escritura estão reunidas em uma sinopse para que possamos ver com mais clareza. Onde há coisas mais obscuramente expressas, elas são mais familiarmente apresentadas àqueles de entendimento mais fraco.

Confissões nos Ajudam a Crescer em Discernimento

Confissões ajudam a descobrir e repelir sedutores e subversores das almas do povo de Deus (Atos 15:24). A mesma cerca que mantém o cervo evita a fera voraz. Elas são uma cerca para a vinha e portanto são de muito bom uso na igreja. Alguns venenos dificilmente podem ser detectados no início, mas como a boca toma sua comida, as ovelhas do pasto de Cristo discernem, por um instinto divino, que alimento é saudável e aquele que é diferente disso. Não são apenas aqueles que têm seus sentidos exercitados para discernir o bem e o mal, até mesmo o bebê recém-nascido tem esse paladar. Tão logo é feito participante da natureza divina, pode dizer quando o leite sincero da Palavra é adulterado (embora talvez não de que maneira). Um cristão piedoso (que tem um coração melhor do que a cabeça) já teve seu espírito se levantando contra algo que ele ouviu em um sermão, mas ele não podia dizer por quê. Depois foi-lhe mostrado que era uma doutrina muito corrupta.

Confissões nos Ajudam a Crescer em Saúde

Um modelo de sãs palavras é especialmente aquele pelo qual eles se recuperam e ganham saúde e força e assim prosperam. O bebê recém-nascido engorda e cresce pelo leite sincero da Palavra (1 Pedro 2:2). É um solo ruim aquele em que as plantas boas estão famintas ou doentes. É provável que seja uma dieta saudável se os homens (de outra forma bem e com saúde) não prosperam nela? Uma boa árvore (nosso Salvador nos diz) produz bons frutos e o mesmo pode ser dito da boa doutrina. Embora, pela corrupção dos corações dos homens, a boa doutrina nem sempre produza bons frutos em suas vidas, ainda que a má doutrina produza naturalmente o que é mau e abominável. Mas vamos continuamente estimar a comida espiritual saudável. O homem de Deus vive e prospera com isso e faz a vontade de Deus com alegria. Como Elias (que passou quarenta dias e quarenta noites na força do que ele comeu), o cristão continua na força desse alimento através do deserto deste mundo até chegar ao monte de Deus. Um coração sadio se deleita e prospera pela sã doutrina. Uma vez que o homem não vive só de pão, mas de toda Palavra que procede da boca de Deus, não é suficiente que estas sãs palavras tenham a aprovação do homem. Elas devem ser não apenas palavras aceitáveis, mas baseadas no que Deus instituiu, elas devem ser palavras da verdade, palavras sábias dadas pelo único Pastor.

Conclusão

Assim, certifique-se de conservar o “modelo das sãs palavras” (2 Timóteo 1:13). Como Cristo disse à igreja de Tiatira: “mas o que tendes, retende-o até que eu venha” (Apocalipse 2:25). Certifique-se de permanecer firme, tome cuidado para que você não seja roubado dele, mas tenha certeza que você o tem. Em várias passagens (Apocalipse 6:9 e Tito 1:9), manter-se firme significa que mantemos a verdade tão firmemente contra toda oposição que nenhuma força do homem ou do diabo pode forçá-la a se apartar de nós, mas que a guardamos firme contra todos.

A verdade é o bom depósito do céu (2 Timóteo 1:14) a qual Deus nos confiou. Nossas almas são o depósito (2 Timóteo 1:12) com o qual confiamos em Deus. Devemos ser tão cuidadosos com a Sua promessa quanto desejamos que ela seja nossa. Certifique-se de que seremos chamados para isso, e quão solene será se formos como o descrito em 1 Reis 20:39-40.

Este é o legado que nos foi dado pelos nossos piedosos antepassados, não deveríamos igualmente ter o cuidado de transmiti-lo à nossa posteridade (Salmos 78:3-4)? Os mártires o selaram com seu sangue, seremos culpados disso por nossa infidelidade? Esta é a melhor parte da herança de nossos filhos, como foi a lei (Deuteronômio 33:4). Certifique-se de que nossos antepassados não se envergonhem de nós e de nossa posteridade na ressurreição por trairmos a verdade de Deus e nossa fé. Manter-se firme é a ordem para muitas das igrejas descritas em Apocalipse 2 e 3, tanto as melhores quanto as piores. Manter-nos firmes pode nos levar a disputas, mas se formos fiéis no conflito, podemos ter certeza da conquista.


21 outubro 2024

O Livre-Arbítrio do Homem Caído

Estudo proferido na EBD da Igreja Presbiteriana do Ibura, em Recife/PE. 

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
Capítulo IX. Do Livre-Arbítrio 

Na seção III do capítulo 9, temos o seguinte:

Seção III. O homem, ao cair no estado de pecado, perdeu inteiramente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de sorte que um homem natural, inteiramente avesso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso.

Este parágrafo da Confissão de Fé de Westminster aborda a doutrina do livre-arbítrio à luz da queda do homem. O texto declara, categoricamente, que a entrada do pecado no mundo resultou na perda total da capacidade humana de escolher o bem espiritual que conduz à salvação. Essa incapacidade é resultado direto da queda de Adão, cujas consequências se estendem a toda a sua posteridade, conforme Romanos 5:12: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram”. Essa condição é ilustrada em Romanos 5:6; Romanos 8:7; e João 15:5. O homem natural, em seu estado decaído, é totalmente oposto ao bem espiritual.

A Natureza Caída e a Aversão ao Bem Espiritual

O homem natural, em seu estado decaído, não apenas perdeu a capacidade para o bem, mas também se tornou inteiramente avesso a ele. A Confissão cita Romanos 3:10-12 para ilustrar essa aversão: “Não há justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só”. O homem, dominado pelo pecado, encontra-se em um estado de morte espiritual, como descrito em Efésios 2:1,5 e Colossenses 2:13, incapaz de se achegar a Deus por sua própria iniciativa.

A Impossibilidade da Auto-Salvação

A Confissão de Fé de Westminster, baseada nas Escrituras, refuta a ideia de que o homem, por meio de seu próprio esforço, pode alcançar a salvação. O texto afirma que o homem natural é incapaz de converter-se ou mesmo de preparar-se para a conversão por si próprio. Essa incapacidade é enfatizada por Jesus em João 6:44 e 65, que reforça que nenhum homem pode vir a Cristo por conta própria: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”. A conversão, portanto, é obra da graça de Deus, que atrai o pecador a Cristo e lhe concede um novo coração, capacitando-o a crer e a obedecer.

Efésios 2:2-5 descreve essa obra da graça: "Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos". A salvação é um dom gratuito de Deus, concedido àqueles que se encontram em um estado de morte espiritual, incapazes de contribuir com qualquer mérito próprio.

A Escravidão da Vontade

É importante entender que, embora o homem tenha perdido a capacidade de escolher o bem espiritual, ele ainda possui livre arbítrio no sentido de que não é coagido por forças externas a agir contra sua vontade. Sua capacidade de escolha é limitada por sua natureza pecaminosa, ou seja, devido à sua natureza caída, o homem escolhe apenas o mal. Scott Price, em "A Falsa Religião do Adepto da Teoria do 'Livre-Arbítrio'", argumenta que a crença no livre-arbítrio para a salvação é uma falsa religião que se opõe à verdade divina. A Confissão, citando Jeremias 13:23, compara a incapacidade do homem de fazer o bem à impossibilidade de um etíope mudar sua pele ou um leopardo suas manchas. A vontade humana, escravizada pelo pecado, é incapaz de escolher o bem espiritual.

As Escrituras, em Gênesis 6:5; 8:21; 1 Coríntios 2:14; e Salmos 14 e 53, demonstram que os pensamentos e desejos do homem são continuamente maus. O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus porque lhe parecem loucura (1 Coríntios 2:14). Sua mente, obscurecida pelo pecado, é incapaz de discernir as verdades espirituais.

Raniere Menezes, em "O Livre-Arbítrio dos Incrédulos", afirma que, embora os incrédulos tenham liberdade de escolha, suas escolhas são limitadas por seus desejos pecaminosos, que são determinados por sua natureza não regenerada. Ele usa a analogia de que espinheiros não produzem uvas para ilustrar que a natureza pecaminosa não pode produzir bons frutos.

Walter J. Chantry, em "O Mito do Livre-Arbítrio", argumenta que a vontade humana, embora capaz de fazer escolhas, é escrava da natureza pecaminosa do homem e não é livre para escolher o bem espiritual. Ele afirma que a vontade humana não pode alcançar nada contrário à vontade de Deus. Ele argumenta que a fé em Jesus Cristo é um ato da vontade humana, mas que essa vontade precisa ser renovada pelo Espírito Santo para que o homem possa escolher Cristo.

A Necessidade da Graça Regeneradora

Diante da incapacidade humana, a CFW destaca a necessidade da graça regeneradora do Espírito Santo. Tito 3:3-5 descreve essa obra do Espírito como um "lavar regenerador e renovador", que transforma o pecador, concedendo-lhe uma nova natureza e capacitando-o para a fé e a obediência. Somente por meio dessa intervenção divina o homem pode ser liberto da escravidão do pecado e ter sua vontade restaurada para a busca do bem espiritual.

A Confissão de Fé de Westminster, ao afirmar a incapacidade humana para o bem espiritual, não nega a responsabilidade do homem por seus atos. A responsabilidade, no entanto, não se baseia na capacidade de escolher o bem, mas no fato de que Deus é o Criador e o homem, sua criatura. O homem é responsável por obedecer aos mandamentos de Deus, mesmo que sua natureza caída o impeça de fazê-lo.

A responsabilidade do homem significa duas coisas. É uma obrigação e uma prestação de contas. Todos são obrigados a fazer o que Deus requer. É o dever de todos amar a Deus de todo o coração e o vizinho como a si mesmo (Marcos 12:29-31). Ninguém pode ser escusado desta obrigação. Isto é o que Deus requer. A responsabilidade do homem é também a sua necessidade de prestar contas. Deus nos considera responsáveis por cumprir ou não nossa obrigação. Algum dia deveremos prestar contas de nós mesmos diante do Juiz do céu e da terra. Jesus diz: “ Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras” (Mateus 16:27). Deveremos prestar contas de todos nossos atos, porque somos responsáveis por todos eles.

Conclusão

A Confissão de Fé de Westminster apresenta uma visão bíblica e realista da natureza humana após a queda, enfatizando a total depravação do homem e sua incapacidade de se voltar para Deus por sua própria vontade. Aprendemos sobre a incapacidade do homem para o bem espiritual, destacando a necessidade da graça soberana de Deus para a salvação. A ênfase na depravação humana não é um fim em si mesma, mas um preâmbulo para a gloriosa doutrina da graça, que liberta o pecador da escravidão do pecado e o capacita para uma vida de fé e obediência a Deus.