ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER
Capítulo XV. Do Arrependimento Para a Vida
Seção I. O arrependimento para a vida é uma graça evangélica, doutrina esta que deve ser pregada por todo ministro do Evangelho, tanto quanto a da fé em Cristo.
II. Movido pelo reconhecimento e sentimento não só do perigo, mas também da impureza e odiosidade de seus pecados como contrários à santa natureza e justa lei de Deus e apreendendo a misericórdia divina manifestada em Cristo aos que são penitentes, o pecador, pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados que, deixando-os, volta-se para Deus, tencionando e procurando andar com ele em todos os caminhos de seus mandamentos.
A doutrina do arrependimento ocupa um lugar central na teologia cristã, sendo inseparável da fé e essencial para a salvação. As duas primeiras seções do capítulo 15 da Confissão de Fé de Westminster nos oferece uma rica compreensão sobre o "arrependimento para a vida", abordando sua natureza evangélica, a necessidade de sua pregação, a experiência subjetiva do pecador e suas implicações para a vida cristã.
1. A Natureza Evangélica e a Necessidade da Pregação do Arrependimento
O Arrependimento como Graça Evangélica. O texto inicia declarando que "O arrependimento para a vida é uma graça evangélica". Esta afirmação destaca a origem divina do arrependimento. Ele não é meramente um ato da vontade humana, mas sim um dom de Deus, concedido por sua graça. O profeta Zacarias, em Zc 12.10, profetiza o derramamento de um espírito de graça e súplicas que levará o povo a lamentar aquele a quem traspassaram. De modo semelhante, em Atos 11.18, após Pedro relatar a conversão dos gentios, a igreja reconhece que "Deus concedeu também aos gentios o arrependimento para a vida". Portanto, o arrependimento que conduz à salvação é uma obra da graça divina no coração do pecador.
O Mandato da Pregação do Arrependimento. A CFW prossegue afirmando que esta é uma "doutrina esta que deve ser pregada por todo ministro do Evangelho, tanto quanto a da fé em Cristo". Esta ênfase na pregação do arrependimento demonstra sua inseparabilidade da mensagem do Evangelho. Jesus Cristo, em suas instruções finais aos discípulos, ordenou que "em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém" (Lc 24.47). Da mesma forma, o precursor de Cristo, João Batista, e o próprio Jesus iniciaram seus ministérios conclamando ao "arrependimento e [à] crença no evangelho" (Mc 1.15). O apóstolo Paulo, resumindo sua missão, declara ter testemunhado "tanto a judeus como aos gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo]" (At 20.21). A Escritura consistentemente associa o arrependimento e a fé como respostas necessárias à proclamação do Evangelho, sendo ambos indispensáveis para a salvação.
2. A Gênese do Arrependimento no Pecador
Reconhecimento do Perigo, Impureza e Odiosidade do Pecado. A Confissão descreve o pecador movido por "reconhecimento e sentimento não só do perigo, mas também da impureza e odiosidade de seus pecados como contrários à santa natureza e justa lei de Deus". Em Romanos 7.12 ficamos sabendo que “...a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom". O verdadeiro arrependimento inicia-se com a convicção do pecado e suas consequências diante de um Deus que é Santo, conforme Salmos 51.3-4: "Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mau diante dos teus olhos". O pecador passa a compreender a transgressão não apenas como uma falha pessoal, mas como uma afronta direta à natureza divina e à sua lei santa e justa, como vemos em Isaías 59.2: "Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus, e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça". Esta percepção da gravidade do pecado é essencial para um genuíno arrependimento (Atos 3.19). A pregação da lei de Deus tem um papel importante em trazer esta convicção. Observe o raciocínio de Paulo em Romanos 3.20: "Porquanto, pelas obras da lei, nenhum ser humano será justificado diante dele; porque pela lei vem o conhecimento do pecado".
Apreensão da Misericórdia Divina em Cristo. O texto continua mencionando que o pecador é movido por "apreendendo a misericórdia divina manifestada em Cristo aos que são penitentes". Em Efésios 2.4-5 lemos: "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo — pela graça sois salvos". A compreensão da misericórdia de Deus, revelada plenamente em Jesus Cristo, é um elemento crucial que impulsiona o pecador ao arrependimento, como podemos notar em Romanos 2.4: "Ou desprezas tu as riquezas da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus te leva ao arrependimento?". A salvação não é alcançada por mérito próprio, mas pela graça divina oferecida àqueles que se voltam para Deus em contrição, como diz Efésios 2.8-9: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie". A obra redentora de Cristo é o fundamento da esperança de perdão e reconciliação para o pecador arrependido e vemos isso em Colossenses 1.13-14: "Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, em quem temos a redenção, a remissão dos pecados".
3. A Experiência e a Ação do Verdadeiro Arrependimento
Sentimento e Aborrecimento do Pecado. Agora podemos detalhar a experiência do pecador arrependido: "o pecador, pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados". Este sentimento de tristeza e horror pelo pecado é descrito em diversas passagens bíblicas. Em Salmos 51.4, Davi expressa sua contrição: "Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau aos teus olhos". O apóstolo Paulo distingue entre a "tristeza segundo Deus [que] produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte" (2Co 7.10). O verdadeiro arrependimento envolve uma profunda tristeza pelo pecado em si, e não apenas por suas consequências.
O Abandono do Pecado e o Retorno a Deus. A Confissão prossegue afirmando que o pecador arrependido "deixando-os, volta-se para Deus". O arrependimento genuíno não é apenas um sentimento, mas uma mudança de direção, um abandonar o pecado e voltar-se para Deus. O profeta Ezequiel exorta: "Convertei-vos e desviai-vos de todas as vossas transgressões, para que a iniquidade não vos seja tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?" (Ez 18.30-31). Em Ezequiel 36.31, o Senhor declara: "Então, vos lembrareis dos vossos maus caminhos e dos vossos feitos que não foram bons; e tereis nojo de vós mesmos, por causa das vossas iniquidades e das vossas abominações". Isaías incentiva ao abandono dos ídolos: "E terás por contaminadas as coberturas de tuas esculturas de prata, e o revestimento das tuas esculturas fundidas de ouro; e as lançarás fora como um pano imundo, e dirás a cada uma delas: Fora daqui" (Is 30.22). O salmista clama: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável" (Sl 51.10). Jeremias descreve o arrependimento de Efraim: "Na verdade, depois que me converti, arrependi-me; depois que fui instruído, bati no peito; fiquei envergonhado, confuso, porque levei o opróbrio da minha mocidade. Far-me-ei eu, porventura, um filho precioso? Ou um filho das delícias? Pois, depois que falei contra ele, ainda me lembro dele solicitamente; por isso, o meu íntimo se comove por ele; certamente dele me compadecerei, diz o SENHOR" (Jr 31.19-20). Joel exorta: "Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, e com jejum, e com choro, e com pranto. E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus; porque ele é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade e se arrepende do mal" (Jl 2.12-13). Amós exorta: "Aborrecei o mal e amai o bem, e estabelecei o juízo na porta; talvez o SENHOR Deus dos Exércitos tenha piedade do resto de José" (Am 5.15). O salmista declara: "Por isso, abomino todo caminho de falsidade" (Sl 119.128). E Paulo descreve os efeitos do arrependimento genuíno: "Porque eis aqui o mesmo cuidado que tivestes, segundo Deus, quanta solicitude vos produziu, quanta defesa, quanta indignação, quanto temor, quanto desejo ardente, quanto zelo e quanta vingança! Em tudo provastes que estáveis limpos neste negócio" (2Co 7.11). Estas passagens ensinam a profundidade da mudança que ocorre no verdadeiro arrependimento, envolvendo tanto o abandono do pecado quanto um retorno sincero a Deus.
Intenção e Esforço para Viver em Obediência. Finalmente, o texto afirma que o pecador arrependido, ao voltar-se para Deus, o faz "tencionando e procurando andar com ele em todos os caminhos de seus mandamentos". O arrependimento genuíno não se limita ao passado, mas projeta-se para o futuro, manifestando-se no desejo e no esforço para viver em obediência à vontade de Deus. O salmista expressa este desejo: "Então, não serei envergonhado, quando observar todos os teus mandamentos" (Sl 119.6) e declara: "Considerei os meus caminhos e voltei os meus pés para os teus testemunhos. Apresso-me e não me demoro em guardar os teus mandamentos... Jurei e firmei que guardarei os teus justos juízos" (Sl 119.59-60, 106). Zacarias e Isabel são apresentados como exemplos de pessoas que "andavam irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor" (Lc 1.6). O rei Josias é elogiado por ter se voltado ao Senhor "com todo o seu coração, e com toda a sua alma, e com toda a sua força, conforme toda a Lei de Moisés" (2Rs 23.25). O verdadeiro arrependimento se manifesta em uma vida transformada, caracterizada pela busca constante em agradar a Deus em todas as áreas. Este processo de santificação é uma consequência natural do arrependimento e da fé.
4. Implicações Teológicas e Práticas
A Centralidade do Arrependimento na Salvação. O texto analisado, em consonância com diversas passagens bíblicas, enfatiza a necessidade do arrependimento para a salvação. Embora a salvação seja um dom gratuito de Deus recebido pela fé, o arrependimento é a resposta do coração convicto do pecado que se volta para a misericórdia divina em Cristo. Sem este reconhecimento da própria pecaminosidade e a consequente mudança de mente e direção, a fé salvífica não se manifesta plenamente.
O Arrependimento como um Processo Contínuo. Embora o texto se concentre na conversão inicial, a ideia de "arrependimento para a vida" sugere que o arrependimento não é um evento único, mas uma disposição contínua do crente ao longo de sua vida cristã. Os crentes continuam a pecar e, portanto, necessitam de um arrependimento constante, reconhecendo suas falhas, buscando o perdão e renovando seu compromisso de obediência a Deus. A oração diária por perdão, como ensinado por Jesus em Mateus 6.12, reflete esta necessidade contínua de arrependimento.
Distinção entre Tristeza Mundana e Tristeza Segundo Deus. A referência a 2 Coríntios 7.10 sublinha a importância de distinguir entre um remorso superficial pelas consequências do pecado e a profunda tristeza segundo Deus que conduz ao verdadeiro arrependimento. A tristeza mundana pode levar ao desespero, enquanto a tristeza segundo Deus opera uma transformação genuína no coração e na vida do pecador, produzindo frutos de arrependimento.
Conclusão
O texto da Confissão de Fé de Westminster oferece uma descrição concisa e profunda do "arrependimento para a vida", ancorada em sólidas bases bíblicas. Ele destaca que o arrependimento é uma graça divina, essencial para a salvação e intrinsecamente ligado à fé em Cristo. Sua gênese reside no reconhecimento da gravidade do pecado e na apreensão da misericórdia de Deus em Jesus. O verdadeiro arrependimento se manifesta em um profundo sentimento de contrição, no abandono do pecado e em um sincero desejo e esforço para viver em obediência aos mandamentos de Deus. Esta doutrina fundamental não apenas molda a experiência da conversão inicial, mas também informa a jornada contínua do crente, caracterizada por um coração contrito e uma busca constante pela santidade. A pregação fiel desta doutrina, juntamente com a da fé, permanece um imperativo para todo ministro do Evangelho, visando a transformação genuína de vidas para a glória de Deus.