31 março 2025

O Arrependimento para a Vida

Estudo proferido na EBD da Igreja Presbiteriana do Ibura, em Recife/PE. 

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
Capítulo XV. Do Arrependimento Para a Vida 


Seção I. O arrependimento para a vida é uma graça evangélica, doutrina esta que deve ser pregada por todo ministro do Evangelho, tanto quanto a da fé em Cristo. 

II. Movido pelo reconhecimento e sentimento não só do perigo, mas também da impureza e odiosidade de seus pecados como contrários à santa natureza e justa lei de Deus e apreendendo a misericórdia divina manifestada em Cristo aos que são penitentes, o pecador, pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados que, deixando-os, volta-se para Deus, tencionando e procurando andar com ele em todos os caminhos de seus mandamentos.



A doutrina do arrependimento ocupa um lugar central na teologia cristã, sendo inseparável da fé e essencial para a salvação. As duas primeiras seções do capítulo 15 da Confissão de Fé de Westminster nos oferece uma rica compreensão sobre o "arrependimento para a vida", abordando sua natureza evangélica, a necessidade de sua pregação, a experiência subjetiva do pecador e suas implicações para a vida cristã.

1. A Natureza Evangélica e a Necessidade da Pregação do Arrependimento

O Arrependimento como Graça Evangélica. O texto inicia declarando que "O arrependimento para a vida é uma graça evangélica". Esta afirmação destaca a origem divina do arrependimento. Ele não é meramente um ato da vontade humana, mas sim um dom de Deus, concedido por sua graça. O profeta Zacarias, em Zc 12.10, profetiza o derramamento de um espírito de graça e súplicas que levará o povo a lamentar aquele a quem traspassaram. De modo semelhante, em Atos 11.18, após Pedro relatar a conversão dos gentios, a igreja reconhece que "Deus concedeu também aos gentios o arrependimento para a vida". Portanto, o arrependimento que conduz à salvação é uma obra da graça divina no coração do pecador.

O Mandato da Pregação do Arrependimento. A CFW prossegue afirmando que esta é uma "doutrina esta que deve ser pregada por todo ministro do Evangelho, tanto quanto a da fé em Cristo". Esta ênfase na pregação do arrependimento demonstra sua inseparabilidade da mensagem do Evangelho. Jesus Cristo, em suas instruções finais aos discípulos, ordenou que "em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém" (Lc 24.47). Da mesma forma, o precursor de Cristo, João Batista, e o próprio Jesus iniciaram seus ministérios conclamando ao "arrependimento e [à] crença no evangelho" (Mc 1.15). O apóstolo Paulo, resumindo sua missão, declara ter testemunhado "tanto a judeus como aos gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo]" (At 20.21). A Escritura consistentemente associa o arrependimento e a fé como respostas necessárias à proclamação do Evangelho, sendo ambos indispensáveis para a salvação.

2. A Gênese do Arrependimento no Pecador

Reconhecimento do Perigo, Impureza e Odiosidade do Pecado. A Confissão descreve o pecador movido por "reconhecimento e sentimento não só do perigo, mas também da impureza e odiosidade de seus pecados como contrários à santa natureza e justa lei de Deus". Em Romanos 7.12 ficamos sabendo que “...a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom". O verdadeiro arrependimento inicia-se com a convicção do pecado e suas consequências diante de um Deus que é Santo, conforme Salmos 51.3-4: "Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mau diante dos teus olhos". O pecador passa a compreender a transgressão não apenas como uma falha pessoal, mas como uma afronta direta à natureza divina e à sua lei santa e justa, como vemos em Isaías 59.2: "Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus, e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça". Esta percepção da gravidade do pecado é essencial para um genuíno arrependimento (Atos 3.19). A pregação da lei de Deus tem um papel importante em trazer esta convicção. Observe o raciocínio de Paulo em Romanos 3.20: "Porquanto, pelas obras da lei, nenhum ser humano será justificado diante dele; porque pela lei vem o conhecimento do pecado".

Apreensão da Misericórdia Divina em Cristo. O texto continua mencionando que o pecador é movido por "apreendendo a misericórdia divina manifestada em Cristo aos que são penitentes". Em Efésios 2.4-5 lemos: "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo — pela graça sois salvos". A compreensão da misericórdia de Deus, revelada plenamente em Jesus Cristo, é um elemento crucial que impulsiona o pecador ao arrependimento, como podemos notar em Romanos 2.4: "Ou desprezas tu as riquezas da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus te leva ao arrependimento?". A salvação não é alcançada por mérito próprio, mas pela graça divina oferecida àqueles que se voltam para Deus em contrição, como diz Efésios 2.8-9: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie". A obra redentora de Cristo é o fundamento da esperança de perdão e reconciliação para o pecador arrependido e vemos isso em Colossenses 1.13-14: "Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, em quem temos a redenção, a remissão dos pecados".

3. A Experiência e a Ação do Verdadeiro Arrependimento

Sentimento e Aborrecimento do Pecado. Agora podemos detalhar a experiência do pecador arrependido: "o pecador, pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados". Este sentimento de tristeza e horror pelo pecado é descrito em diversas passagens bíblicas. Em Salmos 51.4, Davi expressa sua contrição: "Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau aos teus olhos". O apóstolo Paulo distingue entre a "tristeza segundo Deus [que] produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte" (2Co 7.10). O verdadeiro arrependimento envolve uma profunda tristeza pelo pecado em si, e não apenas por suas consequências.

O Abandono do Pecado e o Retorno a Deus. A Confissão prossegue afirmando que o pecador arrependido "deixando-os, volta-se para Deus". O arrependimento genuíno não é apenas um sentimento, mas uma mudança de direção, um abandonar o pecado e voltar-se para Deus. O profeta Ezequiel exorta: "Convertei-vos e desviai-vos de todas as vossas transgressões, para que a iniquidade não vos seja tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?" (Ez 18.30-31). Em Ezequiel 36.31, o Senhor declara: "Então, vos lembrareis dos vossos maus caminhos e dos vossos feitos que não foram bons; e tereis nojo de vós mesmos, por causa das vossas iniquidades e das vossas abominações". Isaías incentiva ao abandono dos ídolos: "E terás por contaminadas as coberturas de tuas esculturas de prata, e o revestimento das tuas esculturas fundidas de ouro; e as lançarás fora como um pano imundo, e dirás a cada uma delas: Fora daqui" (Is 30.22). O salmista clama: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável" (Sl 51.10). Jeremias descreve o arrependimento de Efraim: "Na verdade, depois que me converti, arrependi-me; depois que fui instruído, bati no peito; fiquei envergonhado, confuso, porque levei o opróbrio da minha mocidade. Far-me-ei eu, porventura, um filho precioso? Ou um filho das delícias? Pois, depois que falei contra ele, ainda me lembro dele solicitamente; por isso, o meu íntimo se comove por ele; certamente dele me compadecerei, diz o SENHOR" (Jr 31.19-20). Joel exorta: "Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, e com jejum, e com choro, e com pranto. E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus; porque ele é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade e se arrepende do mal" (Jl 2.12-13). Amós exorta: "Aborrecei o mal e amai o bem, e estabelecei o juízo na porta; talvez o SENHOR Deus dos Exércitos tenha piedade do resto de José" (Am 5.15). O salmista declara: "Por isso, abomino todo caminho de falsidade" (Sl 119.128). E Paulo descreve os efeitos do arrependimento genuíno: "Porque eis aqui o mesmo cuidado que tivestes, segundo Deus, quanta solicitude vos produziu, quanta defesa, quanta indignação, quanto temor, quanto desejo ardente, quanto zelo e quanta vingança! Em tudo provastes que estáveis limpos neste negócio" (2Co 7.11). Estas passagens ensinam a profundidade da mudança que ocorre no verdadeiro arrependimento, envolvendo tanto o abandono do pecado quanto um retorno sincero a Deus.

Intenção e Esforço para Viver em Obediência. Finalmente, o texto afirma que o pecador arrependido, ao voltar-se para Deus, o faz "tencionando e procurando andar com ele em todos os caminhos de seus mandamentos". O arrependimento genuíno não se limita ao passado, mas projeta-se para o futuro, manifestando-se no desejo e no esforço para viver em obediência à vontade de Deus. O salmista expressa este desejo: "Então, não serei envergonhado, quando observar todos os teus mandamentos" (Sl 119.6) e declara: "Considerei os meus caminhos e voltei os meus pés para os teus testemunhos. Apresso-me e não me demoro em guardar os teus mandamentos... Jurei e firmei que guardarei os teus justos juízos" (Sl 119.59-60, 106). Zacarias e Isabel são apresentados como exemplos de pessoas que "andavam irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor" (Lc 1.6). O rei Josias é elogiado por ter se voltado ao Senhor "com todo o seu coração, e com toda a sua alma, e com toda a sua força, conforme toda a Lei de Moisés" (2Rs 23.25). O verdadeiro arrependimento se manifesta em uma vida transformada, caracterizada pela busca constante em agradar a Deus em todas as áreas. Este processo de santificação é uma consequência natural do arrependimento e da fé.

4. Implicações Teológicas e Práticas

A Centralidade do Arrependimento na Salvação. O texto analisado, em consonância com diversas passagens bíblicas, enfatiza a necessidade do arrependimento para a salvação. Embora a salvação seja um dom gratuito de Deus recebido pela fé, o arrependimento é a resposta do coração convicto do pecado que se volta para a misericórdia divina em Cristo. Sem este reconhecimento da própria pecaminosidade e a consequente mudança de mente e direção, a fé salvífica não se manifesta plenamente.

O Arrependimento como um Processo Contínuo. Embora o texto se concentre na conversão inicial, a ideia de "arrependimento para a vida" sugere que o arrependimento não é um evento único, mas uma disposição contínua do crente ao longo de sua vida cristã. Os crentes continuam a pecar e, portanto, necessitam de um arrependimento constante, reconhecendo suas falhas, buscando o perdão e renovando seu compromisso de obediência a Deus. A oração diária por perdão, como ensinado por Jesus em Mateus 6.12, reflete esta necessidade contínua de arrependimento.

Distinção entre Tristeza Mundana e Tristeza Segundo Deus. A referência a 2 Coríntios 7.10 sublinha a importância de distinguir entre um remorso superficial pelas consequências do pecado e a profunda tristeza segundo Deus que conduz ao verdadeiro arrependimento. A tristeza mundana pode levar ao desespero, enquanto a tristeza segundo Deus opera uma transformação genuína no coração e na vida do pecador, produzindo frutos de arrependimento.

Conclusão

O texto da Confissão de Fé de Westminster oferece uma descrição concisa e profunda do "arrependimento para a vida", ancorada em sólidas bases bíblicas. Ele destaca que o arrependimento é uma graça divina, essencial para a salvação e intrinsecamente ligado à fé em Cristo. Sua gênese reside no reconhecimento da gravidade do pecado e na apreensão da misericórdia de Deus em Jesus. O verdadeiro arrependimento se manifesta em um profundo sentimento de contrição, no abandono do pecado e em um sincero desejo e esforço para viver em obediência aos mandamentos de Deus. Esta doutrina fundamental não apenas molda a experiência da conversão inicial, mas também informa a jornada contínua do crente, caracterizada por um coração contrito e uma busca constante pela santidade. A pregação fiel desta doutrina, juntamente com a da fé, permanece um imperativo para todo ministro do Evangelho, visando a transformação genuína de vidas para a glória de Deus.


28 março 2025

[Opinião] Pedro, Paulo e Francisco

Por Augustus Nicodemus 

A análise da vida e do legado de Pedro e Paulo, em comparação com o papado contemporâneo, evidencia profundas divergências entre a eclesiologia bíblica e a estrutura hierárquica da Igreja de Roma.

Pedro, conforme suas próprias palavras em 2Pedro 1.12-15, mostra-se preocupado em deixar aos cristãos não um sucessor institucional, mas uma memória fiel da verdade por meio das Escrituras. A ênfase está na permanência da doutrina, não na criação de um ofício perpétuo. A autoridade apostólica, em sua concepção, é transmitida por meio da Palavra escrita e não por meio de uma cadeia de sucessores.

Paulo, igualmente, compreendia seu ministério como um chamado direto de Cristo. Ele rejeitava qualquer tentativa de centralização ou culto à personalidade, como se vê em 1Coríntios 1.10-17. Sua preocupação era com a pureza do evangelho e a edificação de igrejas locais governadas por presbíteros, não por uma figura singular e suprema. O apóstolo apontava constantemente para Cristo como cabeça da Igreja (Ef 1.22-23), não para si mesmo nem para outro homem.

A figura do papa, mesmo quando revestida de gestos simbólicos de humildade, como a escolha do nome Francisco, permanece inserida em uma estrutura incompatível com o padrão apostólico. A autoridade papal, com pretensões de infalibilidade e jurisdição universal, não encontra fundamento no Novo Testamento. O modelo apostólico é descentralizado, pastoral, fundamentado na suficiência das Escrituras e na liderança de Cristo.

A crítica ao papado, portanto, não se dirige apenas ao indivíduo que ocupa a posição, mas à própria noção de uma autoridade eclesiástica suprema sobre a Igreja de Cristo. A sucessão legítima não é episcopal, mas doutrinária. Os apóstolos legaram à Igreja as Escrituras como fundamento permanente da fé. O papado, ao postular uma autoridade paralela à da Palavra, compromete a centralidade de Cristo e enfraquece a doutrina da suficiência das Escrituras.

Em contraste com o sistema romano, a Igreja fiel deve recuperar a simplicidade e a pureza do modelo neotestamentário: uma comunidade edificada sobre o ensino dos apóstolos, preservado nas Escrituras, com Cristo como único cabeça e pastor supremo.


26 março 2025

[Opinião] Semana da Páscoa

Por Augustus Nicodemus 

A Semana Santa frequentemente se converte num espetáculo de simbolismos vazios, onde rituais repetitivos como a Via-Sacra obscurecem a clareza do evangelho. A centralidade da cruz de Cristo — seu sacrifício vicário e ressurreição gloriosa — é ofuscada por tradições que muitas vezes carecem de base bíblica e fomentam uma espiritualidade teatral. Em vez de conduzir ao arrependimento genuíno, muitos desses atos apenas reforçam uma piedade emocional, mas desprovida da verdade transformadora do evangelho (João 8:32). 

A verdadeira Páscoa, no entanto, não celebra dor encenada, mas redenção eficaz. “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado” (1 Coríntios 5:7) — esta é a realidade que molda a fé cristã. Ele não apenas sofreu; Ele venceu a morte com poder (1 Coríntios 15:55-57). A cruz não é um objeto a ser venerado em rituais dramáticos, mas a proclamação de que a justiça de Deus foi satisfeita (Romanos 3:25-26). O Cristo ressurreto exige resposta de fé obediente, e não mera participação em liturgias sazonais. A Escritura nos chama a anunciar “a morte do Senhor até que Ele venha” (1 Coríntios 11:26), não a encená-la como um espetáculo.



20 março 2025

A Fé Salvadora

Estudo proferido na EBD da Igreja Presbiteriana do Ibura, em Recife/PE 

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
Capítulo XIV. Da Fé Salvadora 

Na seção I do capítulo 14, temos o seguinte:

Seção I. A graça da fé, por meio da qual os eleitos são habilitados a crer para a salvação da sua alma, é obra que o Espírito de Cristo faz no coração deles, e é ordinariamente operada pelo ministério da Palavra; por esse ministério, bem como pela administração dos sacramentos e pela oração, ela é aumentada e fortalecida.


O parágrafo que inicia a Seção I do Capítulo 14 introduz o conceito da fé salvadora dentro da teologia reformada. Esta doutrina é apresentada primariamente como uma graça, um dom soberano de Deus operado no coração dos eleitos pelo Espírito de Cristo, habilitando-os a crer para a salvação. Essa fé, essencial para a apropriação da salvação, é ordinariamente produzida e fortalecida através do ministério da Palavra, bem como pela administração dos sacramentos e pela oração, constituindo os meios de graça instituídos por Deus para comunicar as bênçãos da redenção ao seu povo. A exposição desta doutrina estabelece a fé salvadora como uma obra divina e um elemento central na soteriologia reformada.

1. A Natureza da Fé Salvadora como Graça e Sua Finalidade

O texto inicia caracterizando a fé salvadora como uma "graça da fé". Este ponto é crucial, pois denota que a capacidade de crer para a salvação não é inerente ao ser humano decaído, mas sim um dom divino. A fé, portanto, não se origina da vontade ou capacidade humana, mas é uma concessão graciosa de Deus (Filipenses 1:29). Como afirmado em Efésios 2.8, a salvação é pela graça, “por meio da fé, e isto não provém de nós, mas é dom de Deus”.

A finalidade desta graça da fé é explicitamente declarada: "para a salvação da sua alma" (1 Pedro 1:9). A fé, portanto, é o instrumento pelo qual os eleitos são habilitados a alcançar a salvação eterna (Efésios 2:8-9). Hebreus 10:39 contrasta aqueles que retrocedem para a perdição com aqueles que são da fé para a conservação da alma. Desta forma, a fé se apresenta como o meio divinamente ordenado para a apropriação dos benefícios da redenção em Cristo (Romanos 5:1-2).

2. A Origem Divina da Fé: Obra do Espírito de Cristo no Coração dos Eleitos

A CFW enfatiza que esta graça da fé é "obra que o Espírito de Cristo faz no coração deles". Esta afirmação sublinha a iniciativa divina na concessão da fé salvadora. O Espírito Santo, agindo em união com Cristo, é o agente eficaz que opera a fé no íntimo dos eleitos (João 6:63). 2 Coríntios 4.13 alude a este mesmo espírito de fé. Efésios 1.17-20 e Efésios 2.8, novamente, reforçam a ideia de que a fé é resultado do poder de Deus operando nos crentes.

Esta operação do Espírito não implica uma passividade completa do indivíduo, mas sim uma capacitação sobrenatural que inclina o coração a crer (Filipenses 2:13). A fé é, simultaneamente, um ato humano de confiança e aquiescência, e uma obra divina de capacitação (Efésios 3:16-17). Como bem aponta François Turretini, a operação interior da graça é essencial para que os homens recebam o evangelho (confirmar com João 6:44).

A fé, portanto, não é meramente um assentimento intelectual a certas verdades, mas uma obra do Espírito que transforma o coração e capacita o indivíduo a confiar em Cristo para a salvação (Romanos 10:10). Como afirma Herman Bavinck, o Espírito Santo aplica os benefícios adquiridos por Cristo aos crentes (confirmar com Tito 3:5-6).

3. O Meio Ordinário da Fé: O Ministério da Palavra

O texto da Confissão prossegue declarando que a fé é "ordinariamente operada pelo ministério da Palavra". Esta afirmação destaca o papel central da pregação e do ensino da Palavra de Deus como o meio primário pelo qual o Espírito Santo desperta e nutre a fé (1 Coríntios 1:21). Romanos 10.14,17 são clássicos neste ponto, afirmando que a fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo.

A Palavra de Deus, contida nas Escrituras do Antigo e Novo Testamento, é a única regra para nos dirigir na maneira de glorificar a Deus e de nos alegrarmos nele (Salmos 119:105). Ela é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça (2 Timóteo 3:16-17). O ministério da Palavra, portanto, é o instrumento escolhido por Deus para comunicar a verdade que gera a fé (Romanos 10:14).

A igreja, como depositária e arauto dos oráculos de Deus, tem a responsabilidade de apresentar e promulgar a Palavra (1 Timóteo 3:15). A pregação do evangelho é o meio ordenado por Deus para congregar a sua igreja e conduzir os eleitos à comunhão com Cristo (1 Coríntios 1:21).

4. O Aumento e Fortalecimento da Fé: Ministério da Palavra, Sacramentos e Oração

Finalmente, a CFW aponta que a fé é "aumentada e fortalecida por esse ministério [da Palavra], bem como pela administração dos sacramentos e pela oração" (Atos 6:4). A fé, uma vez implantada, não é estática, mas dinâmica, capaz de crescimento e fortalecimento através dos meios de graça providos por Deus (Colossenses 2:6,7).

Ministério da Palavra 

Assim como a Palavra é o meio ordinário para a operação inicial da fé, ela continua sendo essencial para o seu crescimento. A leitura e, especialmente, a pregação da Palavra são meios eficazes para edificar os crentes em santidade e conforto, por meio da fé para a salvação. 1 Pedro 2.2 exorta os crentes a desejarem ardentemente o genuíno leite espiritual para que, por ele, lhes seja dado crescimento para a salvação. Atos 20.32 declara que a palavra da graça de Deus tem poder para edificar e dar herança entre os santificados.

Administração dos Sacramentos

Os sacramentos, como sinais e selos da aliança da graça, também servem como meios de fortalecimento da fé (Romanos 6:3-4). Embora não originem a obra da graça no coração do pecador, pressupõem a presença da fé e aumentam a sua eficácia (Mateus 26:26-28). A participação na Ceia do Senhor, por exemplo, visa a uma comunhão cada vez mais íntima com Cristo, nutrição e vivificação espiritual, e crescente segurança da salvação (João 6:53-58).

Oração

A oração, como comunicação direta com Deus, é outro meio pelo qual a fé é aumentada e fortalecida (Filipenses 4:6-7). Através da oração, os crentes buscam a Deus, reconhecem sua dependência dele e recebem as bênçãos necessárias para o seu crescimento espiritual (Tiago 1:5). Lucas 17.5 registra o pedido dos apóstolos a Jesus: "Aumenta-nos a fé!". Romanos 4.11 associa a fé à justiça obtida pela graça de Deus.

Estes meios de graça atuam em conjunto, sob a operação do Espírito Santo, para nutrir e fortalecer a fé dos crentes ao longo de sua jornada cristã.

Conclusão

A Confissão oferece uma síntese concisa e profunda sobre a fé salvadora. Ela é apresentada, primeiramente, como um dom da graça divina, essencial para a salvação da alma. Em segundo lugar, sua origem é atribuída à obra eficaz do Espírito de Cristo no coração dos eleitos, evidenciando a iniciativa soberana de Deus na salvação. Terceiro, o ministério da Palavra é estabelecido como o meio ordinário pelo qual o Espírito opera a fé, ressaltando a importância da pregação e do ensino bíblico. Por fim, o crescimento e o fortalecimento da fé são vinculados ao contínuo ministério da Palavra, à administração dos sacramentos e à prática da oração, delineando os caminhos pelos quais os crentes são edificados na fé até a consumação da salvação.

A compreensão destes aspectos é fundamental para a vida cristã, pois direciona o olhar para a dependência da graça divina, valoriza o papel central das Escrituras e dos meios de graça instituídos por Deus, e incentiva a busca constante por um crescimento na fé que conduz à salvação eterna.


11 março 2025

A Santificação e a luta contra a Carne

Estudo proferido na EBD da Igreja Presbiteriana do Ibura, em Recife/PE 

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
Capítulo XIII. Da Santificação 

Na seção II e III do capítulo 13, temos o seguinte: 

Seção II. Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda subsiste em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável – a carne lutando contra o Espírito, e o Espírito contra a carne.

Seção III. Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que restam, contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada do homem novo vence, e assim os santos crescem em graça, aperfeiçoando a sua santidade no temor de Deus.


Na teologia reformada, a santificação é entendida como um processo gradual e contínuo, impulsionado pela obra do Espírito Santo. Após a regeneração, o Espírito Santo infunde novos dons, qualidades e hábitos na vontade do crente, capacitando-o a produzir frutos de boas ações.

A Imperfeição da Santificação e a Luta Interna

A santificação, embora abranja o ser humano por completo, é um processo imperfeito nesta vida terrena (Filipenses 3:12). A persistência de resquícios de corrupção em cada parte do indivíduo regenerado resulta em uma contínua e irreconciliável guerra interior (Romanos 7:23). Essa batalha se manifesta na oposição entre a carne e o Espírito, uma luta constante entre os desejos da natureza pecaminosa e a influência do Espírito Santo. Em Gálatas 5:16-17, ele exorta os crentes a andar no Espírito para não satisfazerem os desejos da carne, pois a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne. Essa oposição impede que os crentes façam o que querem.

A Vitória da Graça e o Crescimento na Santidade

Apesar da persistência da corrupção e da intensidade da luta interna, a graça divina se manifesta de forma triunfante (Romanos 5:20). Pelo contínuo auxílio do Espírito Santo, a parte regenerada do novo homem prevalece sobre as corrupções remanescentes (Romanos 8:13). Essa vitória progressiva capacita os santos a crescerem em graça, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus (2 Coríntios 7:1).

A vitória da graça e o crescimento na santidade podem ser compreendidos através dos seguintes aspectos:

Ação Contínua do Espírito Santo

A vitória sobre a corrupção remanescente e o crescimento na santidade são resultados diretos do contínuo auxílio do Espírito Santo (Gálatas 5:16). É o Espírito quem capacita os crentes a resistirem aos desejos da carne e a produzirem frutos de justiça (Gálatas 5:22-23). O Espírito Santo é o agente santificador, transformando progressivamente o crente à imagem de Cristo (2 Coríntios 3:18).

Cooperação Humana

Embora a santificação seja primariamente uma obra de Deus, ela também envolve a cooperação humana (Filipenses 2:12-13). Os crentes são chamados a se esforçarem na busca pela santidade, utilizando os meios de graça que Deus disponibiliza (Hebreus 12:14). Isso inclui a leitura e meditação na Bíblia (Salmos 1:2), a oração (1 Tessalonicenses 5:17), a adoração (João 4:24), o testemunho (Mateus 5:16), a prática de atos de misericórdia e justiça (Miquéias 6:8), a comunhão cristã (Hebreus 10:25) e a autodisciplina (1 Coríntios 9:27).

Transformação Integral

A santificação afeta a pessoa como um todo, purificando-a de tudo o que contamina o corpo e o espírito (2 Coríntios 7:1). Ela não se limita a uma mera mudança de comportamento, mas envolve uma renovação da mente, das emoções e da vontade (Romanos 12:2). O objetivo final da santificação é a conformidade com a imagem de Cristo, tornando os crentes cada vez mais semelhantes a Ele em pensamento, palavra e ação (Romanos 8:29).

Processo Gradual e Contínuo

A santificação não é um evento único e instantâneo, mas um processo gradual e contínuo que se estende ao longo da vida do crente (Provérbios 4:18). Embora possa haver momentos de progresso e retrocesso, a direção geral da vida do crente deve ser de crescimento constante na graça e no conhecimento de Cristo (2 Pedro 3:18).

Aperfeiçoamento Progressivo

Paulo fala sobre a necessidade de esquecer o passado e avançar em direção ao alvo, buscando a perfeição (Filipenses 3:13-14). Embora a perfeição completa não seja alcançável nesta vida, os crentes devem se esforçar continuamente para aperfeiçoar a santidade no temor de Deus (2 Coríntios 7:1). Isso envolve uma busca constante pela pureza de coração (Mateus 5:8), pela prática da justiça (1 João 3:7) e pela obediência aos mandamentos de Deus (João 14:15).

Alegria e Paz

A santificação traz consigo grande alegria e paz (Gálatas 5:22). Quanto mais os crentes crescem em semelhança a Cristo, mais experimentam a alegria e a paz que são frutos do Espírito Santo (Romanos 14:17). A santificação também os aproxima da verdadeira felicidade e da plenitude de vida que Deus oferece: “...eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (João 10:10).

Meios de Graça

Os meios de graça desempenham um papel fundamental no processo de santificação. A Palavra de Deus, os sacramentos (batismo e Ceia do Senhor) e a oração são instrumentos pelos quais o Espírito Santo comunica a graça divina e transforma os crentes à imagem de Cristo (Efésios 5:26; 1 Coríntios 11:23-26; Efésios 6:18). O uso diligente desses meios capacita os crentes a crescerem em santidade e a experimentarem a plenitude da vida cristã (Colossenses 3:16).

A Graça Imediata e a Ação Interna de Deus

A eficácia da graça divina na santificação é demonstrada pela corrupção humana (Efésios 2:1-5). A visão espiritual da fé e a revelação da doutrina na Palavra só são possíveis mediante a restauração da faculdade corrompida (1 Coríntios 2:14). Deus opera nos corações dos homens por um poder interno e oculto, gerando não apenas revelações genuínas, mas também a boa vontade (Filipenses 2:13).

As Escrituras atribuem a Deus uma ação interna na conversão do homem (João 6:44). Ele efetua tanto o querer quanto o realizar, cumprindo todo propósito de bondade e obra de fé (2 Tessalonicenses 1:11) e operando o que é agradável diante dEle (Hebreus 13:21).

Implicações para a Vida Cristã

A doutrina da santificação tem implicações importantes para a conduta da vida cristã. Ela enfatiza a necessidade de buscar a reconciliação com Deus e a incorporação em sua comunhão (2 Coríntios 5:18). A ordem da salvação, ou ordo salutis, busca responder à questão de como o pecador obtém os benefícios da graça adquirida por Cristo (Efésios 2:8-9).

A vida interior do povo de Deus, até o fim de seu curso neste mundo, é uma repetição da conversão (Mateus 18:3). É um contínuo voltar-se para Deus, uma constante renovação de confissão, arrependimento e fé (1 João 1:9; Atos 3:19), um morrer para o pecado e um viver para a justiça (Romanos 6:11).

Conclusão

A Confissão de Fé de Westminster oferece uma síntese clara dessa doutrina, guiando os crentes na busca pela santidade. A santificação é um processo contínuo e dinâmico, iniciado na regeneração e estendido por toda a vida do crente, transformando o crente à imagem de Cristo e capacitando-o a viver para a glória de Deus. Embora não alcance perfeição nesta vida, o crente, capacitado pela graça de Deus, luta contra o pecado e busca a conformidade com a imagem de Cristo. A fé, como meio de apropriação da graça divina, é evidenciada por boas obras que refletem uma transformação interior operada pelo Espírito Santo. Esse processo envolve uma constante batalha espiritual, onde o crente se esforça para mortificar as obras da carne e viver em obediência a Deus. A compreensão da santificação requer uma interpretação cuidadosa das Escrituras, destacando a centralidade da graça divina e a importância da obediência.


09 fevereiro 2025

A Doutrina da Adoção

Estudo proferido na EBD da Igreja Presbiteriana do Ibura. 

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
Capítulo XII. Da Adoção 

Na seção I do capítulo 12, temos o seguinte: 

Seção I. A todos os que são justificados, Deus se digna fazer participantes da graça da adoção em e por seu único Filho, Jesus Cristo. Por essa graça, eles são recebidos no número e gozam a liberdade e privilégios dos filhos de Deus, têm sobre si o nome dele, recebem o Espírito de adoção, têm acesso, com ousadia, ao trono da graça e são habilitados a clamar: “Abba, Pai”; são tratados com piedade, protegidos, providos e corrigidos por ele, como por um pai; nunca, porém, abandonados, mas selados para o dia da redenção e recebem as promessas como herdeiros da eterna salvação. 

A adoção é um ato da livre graça de Deus, pelo qual os que são justificados são recebidos na família de Deus, desfrutando dos privilégios e da herança como filhos. Este ato é realizado por meio de Jesus Cristo.

1. Natureza da Adoção

Adoção como um Ato de Graça (Efésios 1:5). A adoção não é um direito, mas um ato gracioso de Deus (Romanos 9:16). Ela é concedida aos que são justificados, ou seja, aqueles que foram declarados justos por meio da fé em Cristo (Gálatas 4:4-5). A adoção é uma consequência da justiça de Cristo, que concede não apenas o perdão dos pecados, mas também o direito à vida eterna. A adoção é um ato de vontade graciosa de Deus. Romanos 8:15 afirma: "Porque vós não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, vos tornardes ao temor, mas recebestes o Espírito de filiação, pelo qual clamamos: Aba, Pai!". Observe o apóstolo Paulo mostrando que, através da obra redentora e justa de Cristo, os crentes passam a ter o privilégio de se relacionar com Deus como filhos, desfrutando não só do perdão dos pecados, mas também da promessa da vida eterna.

Adoção em e “por meio de Cristo”. Efésios 1:5 mostra que a adoção é possível através de Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus. A filiação dos crentes é análoga à filiação de Cristo, embora a dele seja por natureza, e a dos crentes, por adoção. Cristo, ao se sujeitar à lei, redimiu os crentes da escravidão para que pudessem receber a adoção. A passagem de Gálatas 4:4-5 enfatiza que, mesmo estando sujeito à lei, Cristo assumiu a condição humana para redimir os que estavam cativos do pecado, abrindo-lhes o caminho para serem adotados como filhos de Deus.

Distinção entre adoção e outros benefícios. Embora a adoção esteja ligada à justificação e à regeneração, ela é distinta desses privilégios. Deus poderia ter perdoado os pecados e concedido o direito legal de permanecer diante dEle sem, contudo, tornar os crentes Seus filhos. Igualmente, Ele poderia ter vivificado espiritualmente sem torná-los membros de Sua família. No entanto, a adoção enfatiza o relacionamento pessoal com Deus. Atente para o que diz João 1:12: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome". Essa passagem ressalta que a filiação divina não se resume a um benefício jurídico ou ao perdão, mas envolve uma transformação relacional profunda, conferindo aos crentes o status de filhos de Deus (ver 1 João 3:1 e Gálatas 4:7).

2. Privilégios da Adoção

Recepção na família de Deus. Através da adoção, os crentes são recebidos no número dos filhos de Deus, passando de estranhos e estrangeiros para membros da família de Deus. Eles desfrutam da liberdade e dos privilégios que pertencem aos filhos (Efésios 2:19; Gálatas 4:7).

Carregam o nome de Deus. Os adotados têm o nome de Deus sobre si, indicando que agora pertencem a Ele e são reconhecidos como parte de Sua família. Efésios 1:13-14 fala de um selo do Espírito Santo da promessa e podemos dizer que este selo do Espírito Santo sobre os crentes pode ser interpretado como a marca distintiva que indica que o nome de Deus repousa sobre eles, simbolizando o seu pertencimento à família divina. Já Apocalipse 3:5 garante que o nome do vencedor nunca será apagado do livro da vida e reforça o reconhecimento eterno de que ele pertence à família de Deus.

Recebimento do Espírito de Adoção. Os crentes recebem o Espírito de adoção, o que lhes permite ter a certeza de que são filhos de Deus. O Espírito Santo testifica com o espírito dos crentes que eles são filhos de Deus, permitindo-lhes clamar "Abba, Pai" (Romanos 8:15-16). O Espírito Santo também sela os crentes para o dia da redenção. Voltemos para o texto de Efésios 1:13-14: "Nele, também, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e nele também crestes, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, que é a garantia da nossa herança até à redenção daqueles que Deus nos reservou para louvor da sua glória". Este selo do Espírito Santo não só confirma a filiação divina, mas também serve como garantia da herança futura dos crentes, assegurando sua redenção final e eterna.

Acesso ao Trono da Graça. Os filhos de Deus têm acesso direto e ousado ao trono da graça, podendo se aproximar de Deus com confiança para receber misericórdia e encontrar graça para auxílio em tempo de necessidade (Hebreus 4:16). O véu do santuário foi rasgado, simbolizando o acesso direto a Deus. É o que encontramos em Mateus 27:51: "E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; a terra tremeu, e as pedras se dividiram". O rasgar do véu, ocorrido no momento da morte de Cristo, simboliza o fim das barreiras que separavam o homem da presença de Deus. Por meio da obra redentora de Jesus, os crentes passaram a ter acesso direto ao Pai, sem a necessidade de intermediários.

Tratamento como Filhos. Deus trata os crentes com piedade, como um pai cuida de seus filhos (Salmos 103:13). Ele os protege (Isaías 41:10), provê as suas necessidades (Filipenses 4:19) e os corrige quando necessário, visando sempre o seu bem (Provérbios 3:11-12; Hebreus 12:11). A disciplina de Deus não é uma punição, mas uma correção para o crescimento e edificação do caráter.

Herança da Salvação. Os crentes são herdeiros das promessas de Deus e co-herdeiros com Cristo, aguardando a eterna salvação (Romanos 8:17; Hebreus 9:28). Eles herdarão o reino de Deus, pois todos os que são adotados como filhos de Deus são vencedores e herdeiros do reino (Mateus 25:34; Apocalipse 21:7). A herança inclui todos os bens de Deus, tanto da graça quanto da glória (Efésios 1:18).

Liberdade. A adoção traz liberdade cristã, que não é uma licença para viver segundo os próprios prazeres, não se trata de permissividade (Gálatas 5:13), mas a libertação do pecado (Romanos 6:22), de Satanás (Colossenses 1:13) e da lei (Gálatas 4:5). Os crentes não são mais escravos sob a lei, mas filhos que obedecem a Deus por amor (Gálatas 4:7; João 14:15).

3. Implicações da Adoção

Relacionamento com Deus. A adoção estabelece um relacionamento pessoal e íntimo com Deus (João 1:12), em que Ele é o Pai amoroso e os crentes são seus filhos amados (1 João 3:1; Romanos 8:15). Os crentes são conduzidos pelo Espírito de Deus e têm um relacionamento de confiança com Ele (Romanos 8:14; Hebreus 10:22).

Relacionamento com outros crentes. A adoção faz com que os crentes se tornem parte de uma grande família (Efésios 2:19), tendo irmãos e irmãs em Cristo trazendo novos laços familiares, com outros crentes (Mateus 12:50). Eles têm novos relacionamentos horizontais (Romanos 12:10), além do relacionamento vertical com Deus (1 João 1:3).

Certeza e Segurança. A adoção concede aos crentes a certeza de que são filhos de Deus (Romanos 8:16), selados pelo Espírito Santo (Efésios 1:13). Eles têm a segurança da proteção e do cuidado paternal de Deus (Salmos 91:1-2; 1 Pedro 5:7). Eles podem confiar que não serão abandonados (Deuteronômio 31:8; Salmos 40:1-10; 56:3-4; 62:5-8; 125:1; Romanos 8:31-39; 10:11; 1 Pedro 5:6-7; Hebreus 13:5-6; 2 Tessalonicenses 3:3-4; 5:23-24; 2 Timóteo 1:12; 1 João 5:14-15; Mateus 28:20; João 14 e 17).

Esperança: A adoção também envolve a esperança da plena manifestação da filiação na ressurreição (1 João 3:2; Romanos 8:23), quando os crentes receberão a totalidade da herança. A esperança da adoção é a ressurreição dos corpos (Hebreus 6:19).

Conclusão

A adoção é um privilégio extraordinário concedido por Deus aos que creem em Jesus Cristo, que, uma vez concedido, garante uma segurança eterna. Ela confere aos crentes um novo status, uma nova identidade e um novo relacionamento com Deus, transformando-os em membros de Sua família, herdeiros de Sua promessa, uma herança que é guardada no céu, e participantes de Seus privilégios. A doutrina da perseverança dos santos, que é baseada na doutrina da adoção, assegura que, uma vez adotados, os crentes são mantidos na fé pelo poder de Deus e perseverarão até o fim, pois a adoção não é um mero status legal, mas uma união indissolúvel com Cristo, selada pelo Espírito Santo para o dia da redenção.

Essa segurança eterna decorrente da adoção, é que garante a perseverança dos santos, trazendo grande conforto e confiança aos crentes. Eles têm a certeza de que, uma vez recebidos na família de Deus, não serão abandonados e participarão plenamente da herança celestial. A adoção, portanto, não é, de novo digo, apenas uma mudança de status, mas uma transformação completa e permanente em seu relacionamento com Deus, garantindo a eles uma vida eterna. A perseverança dos santos é, então, a garantia da fidelidade de Deus em manter sua promessa de adoção, assegurando que aqueles que são adotados por Ele permanecerão em seu amor e cuidado para sempre. 


21 janeiro 2025

[Exposição] A Parábola do Filho Pródigo | Lucas 15:11-32

A parábola do filho pródigo, encontrada em Lucas 15:11-32, é uma das mais ricas narrativas bíblicas, abordando temas como arrependimento, perdão, misericórdia, influência do mundanismo e a natureza do pecado. A parábola apresenta um pai com dois filhos, onde o filho mais novo pede sua parte da herança, sai de casa e a desperdiça, enquanto o mais velho permanece ao lado do pai, trabalhando para ele.

A parábola pode ser utilizada como uma ilustração da condição humana e da influência da cultura mundana na vida das pessoas. A análise desta história destaca como a cultura pode seduzir e afastar os indivíduos dos princípios e valores estabelecidos, levando-os a caminhos de sofrimento e desilusão. O estudo desta parábola revela pontos cruciais para a compreensão da relação entre o indivíduo, a cultura e a busca pela restauração.

1. A Sedução da Cultura e o Afastamento do Lar (Lucas 15:11-13)

O filho mais novo, movido pelo desejo de viver segundo sua própria vontade, pede ao pai a parte da herança que lhe cabe. Esse ato demonstra um anseio por independência e uma busca por satisfação pessoal, que o leva a se afastar da autoridade e da presença do pai. O filho, acreditando que estava perdendo o melhor da vida por estar na casa do pai, optou por deixar o conforto e a segurança da casa de seu pai para viver de acordo com seus próprios desejos e prazeres.

O pai, embora possa se sentir ofendido, atende ao pedido do filho e divide seus bens entre eles. Essa atitude revela a liberdade que Deus concede ao ser humano, permitindo que ele siga seu próprio caminho, mesmo que esse caminho o leve para longe dEle.

Em seguida, o filho mais novo junta tudo o que é seu e parte para uma terra distante, onde vive de forma dissoluta e desperdiça todos os seus bens. É como se ele tivesse dito: “Pai, permita que eu viva como quiser e possa fazer o que considerar bom”. Esse desejo de fazer o que lhe agrada é a origem de todos os males e inconveniências do mundo, pois as pessoas se recusam a viver de acordo com a vontade de Deus.

Chamo a atenção para um detalhe que poucos percebem: na parábola, não foi o diabo quem causou a partida do filho pródigo, mas sim a sedução da cultura. Satanás não aparece em nenhum momento nessa história. O próprio jovem queria partir, pegar o dinheiro, correr e viver a vida ao máximo. Por quê? Em contradição com o governo da casa de seu pai, a atração pela cultura e tudo o que ela tinha a oferecer seduziu o filho a se afastar. O filho deixou sua casa para aproveitar e gastar seu dinheiro em tudo o que a cultura podia lhe oferecer. O filho não conhecia a diferença entre liberdade e libertinagem até que deixou o pai, "desperdiçou seus bens vivendo dissolutamente" (em festas) e, em seguida, se viu sozinho, sem recursos, trabalhando em um chiqueiro, passando fome.

Essa decisão do filho mais novo é vista como uma busca por liberdade, mas que, na verdade, se transforma em libertinagem. O filho deseja viver "a sua plenitude", mas, ao se afastar do governo da casa de seu pai, ele se entrega aos prazeres mundanos oferecidos pela cultura, que se mostram vazios, vãos e insípidos.

Essa busca por satisfação pessoal, fora do contexto dos princípios estabelecidos, leva o filho a desperdiçar seus bens em festas e a se encontrar sozinho e sem recursos. Esse ponto ressalta como a cultura, com suas atrações e promessas de felicidade, pode desviar o indivíduo de seu verdadeiro propósito e levá-lo à ruína.

2. O Sofrimento do Filho Pródigo (Lucas 15:14-19)

Após dissipar todos os seus bens, o filho pródigo enfrenta uma grande fome na região e começa a passar necessidades. A experiência da miséria e da fome o leva a trabalhar como guardador de porcos, uma ocupação considerada degradante para um judeu. Essa situação ilustra as consequências do pecado e do afastamento de Deus, onde o prazer inicial se transforma em vazio e sofrimento. Quando os chamados “amigos” não estão disponíveis nos momentos difíceis, e o melhor que se pode encontrar para comer é uma vagem de alfarroba, você está apenas existindo, não vivendo.

Diante de tamanha adversidade, o filho pródigo "caiu em si" e reconheceu a insensatez de suas escolhas. O sofrimento, a fome e a proximidade da morte por inanição levam o filho a "voltar em si" e reconhecer sua condição miserável. Ele lembra que, na casa de seu pai, até os trabalhadores têm pão com fartura, enquanto ele está à beira da morte por fome. Erasmo de Roterdã afirma que é esse "sofrimento feliz" que obriga uma pessoa a voltar a si, sendo o primeiro passo para a salvação.

O filho decide, então, retornar para casa e pedir perdão ao pai, reconhecendo que não é mais digno de ser chamado filho. William Cowper afirma que o arrependimento segue o curso contrário do pecado. O arrependimento segue o curso contrário do que as pessoas fazem quando estão em pecado. Desse modo, Crisóstomo cita as ações dos sábios magos, que quando foram para casa tomaram um caminho diferente daquele que usaram para chegar ao campo (Mateus 2:1-12).

Podemos observar em todas as pessoas arrependidas que elas voltam para o Senhor de outra maneira e não da mesma forma que o deixaram. Como disse William Cowper: “Se vocês se afastarem do Senhor com raiva ou ódio, voltem para ele com humildade e amor. Se vocês pecaram com falta de moderação, voltem controlados. Se pecaram com cobiça, tirando de outras pessoas o que não deveriam, façam a restituição como Zaqueu”. O filho se humilha e decide confessar o seu pecado, um reconhecimento essencial para a restauração do relacionamento com o pai.

3. O Retorno do Filho e a Reação do Filho Mais Velho (Lucas 15:20-32)

O pai, vendo o filho ainda longe, corre ao seu encontro, abraça-o e o beija. Este gesto demonstra o amor incondicional e a misericórdia de Deus, que perdoa completamente os pecados daqueles que se arrependem. O pai não espera que o filho complete sua confissão, mas o recebe com alegria e afeto.

O retorno do filho à casa do pai é descrito como um momento de graça e restauração. O pai o recebe com alegria, demonstra seu amor e perdão, e o restaura à sua posição familiar. Esse acolhimento simboliza a misericórdia divina, que está sempre disponível para aqueles que se arrependem e retornam ao lar.

O pai ordena que seus servos tragam as melhores vestes, um anel e sandálias para o filho, símbolos de sua restauração e aceitação na família. Além disso, mandou matar o novilho cevado para celebrar o retorno do filho que estava morto e reviveu, perdido e foi achado. Obadiah Sedgwick ressalta que, enquanto o filho pensa em seus pecados, o pai pensa na misericórdia e na compaixão.

O filho mais velho, que estava no campo, ao ouvir a música e as danças, fica indignado e se recusa a entrar em casa. Sua reação revela inveja e ressentimento, mostrando que seu serviço ao pai era motivado por obrigação, não por amor genuíno. Ele não consegue se alegrar com a restauração do irmão, evidenciando sua falta de compaixão e humildade.

O pai, em vez de repreender o filho mais velho, sai ao seu encontro para persuadi-lo a entrar e participar da celebração. O pai reafirma que tudo o que é dele também é do filho mais velho. João Calvino argumenta que não há motivo para o filho mais velho se irar, pois nada lhe é tirado quando Deus recebe um pecador de volta.

O pai explica que era necessário celebrar a volta do filho que estava morto e reviveu, perdido e foi achado. Essa explicação finaliza a parábola, enfatizando a importância da alegria e da celebração do arrependimento e da restauração, além de convidar o filho mais velho a abandonar a sua atitude de auto-justiça e a participar da alegria do Pai.

4. A Cultura do Cristianismo como Contraponto à Cultura Mundana

O relato do filho pródigo que saiu da casa do pai para se entregar aos prazeres mundanos, por causa da influência de uma cultura individualista, egocêntrica e irresponsável não é um caso isolado. Na Bíblia há muitos exemplos negativos do povo de Deus desejando ser igual ao mundo.

Os anciãos de Israel, ao pedirem um rei, demonstraram que desejavam ser semelhantes às nações ao seu redor, em vez de seguir o modelo único que Deus havia estabelecido para eles. Eles queriam um rei que os liderasse em batalhas e governasse como os outros reinos. Isso é evidenciado em 1 Samuel 8:5: “Tu já estás idoso, e teus filhos não andam em teus caminhos; escolhe agora um rei para que nos lidere, à semelhança das outras nações”. A motivação por trás desse pedido era o desejo de se conformar com as práticas das outras nações, em vez de confiar na liderança divina.

Um outro exemplo notável desse padrão é encontrado na história do rei Roboão, filho de Salomão, que optou por seguir o conselho dos seus jovens amigos que eram da mesma idade, ou seja, imaturos e inexperientes, em vez do conselho dos anciãos de Israel (2 Crônicas 10). O rei Roboão nos ensina que nem todo conselho é válido, mesmo que venha de pessoas próximas ou de nossa confiança. Precisamos buscar orientação de pessoas sábias, experientes e espiritualmente fundamentadas.

E o que dizer de Sansão? A história de Sansão é um exemplo de como as influências externas e os desejos pessoais podem levar à queda de um servo de Deus. Casou-se com uma estrangeira (Juízes 14) e teve um caso com uma prostituta e logo em seguida teve mais outro caso, desta vez com Dalila, a responsável por sua queda (capítulo 16). Apesar de seu chamado e dons, Sansão não conseguiu viver de acordo com o propósito de Deus para sua vida (Juízes 13 a 16).

Podemos utilizar a parábola do filho pródigo para diferenciar a cultura mundana com a cultura do cristianismo. A parábola ensina que, ao nascer de novo espiritualmente, o indivíduo renasce dentro da cultura do cristianismo, que oferece um padrão de vida mais elevado do que o da cultura natural.

Como cristãos, devemos criticar a cultura atual, que promove a imoralidade, a falta de respeito à autoridade, a desobediência aos pais e a irresponsabilidade pessoal. Os cristãos devem resistir à sedução da cultura mundana e viver de acordo com os princípios da fé.

Conclusão

A análise da parábola do filho pródigo destaca a importância de reconhecer a má influência de uma cultura mundanizada na vida das pessoas. A parábola, vista sob essa perspectiva, não é apenas uma história sobre um filho que se perde e retorna, mas também uma ilustração da luta entre a cultura mundana e a cultura do cristianismo. A cultura do mundo, com suas promessas e seduções, pode afastar os indivíduos de Deus e de seus princípios. No entanto, ressaltamos a importância do arrependimento e da restauração, oferecidos pela graça divina, que permite aos indivíduos retornarem ao "lar do Pai", superando as armadilhas da cultura mundana.



29 dezembro 2024

Cristianismo versus Liberalismo Teológico

O livro "Cristianismo e Liberalismo" foi escrito pelo teólogo e professor presbiteriano norte-americano J. Gresham Machen (1881-1937) e publicado pela primeira vez em 1923. A obra é uma defesa vigorosa do cristianismo ortodoxo em face do liberalismo teológico que ganhava força no início do século XX, apresentando um panorama dos desafios enfrentados pela igreja. O livro é um apelo à fidelidade às Escrituras e à singularidade do Evangelho.

O liberalismo teológico, conforme analisado por J. Gresham Machen, não é uma forma legítima de cristianismo, mas sim uma religião distinta devido às suas diferenças fundamentais em relação à doutrina, à autoridade bíblica, à visão de Deus e do homem, e ao caminho da salvação. Machen argumenta que o liberalismo dilui e descaracteriza a essência do Evangelho, comprometendo a autoridade das Escrituras e negando a centralidade da expiação de Cristo.

As diferenças fundamentais são:

  • Autoridade: O cristianismo se baseia na Bíblia como a Palavra de Deus, a regra infalível de fé e prática. Em contraste, o liberalismo se fundamenta nas emoções e opiniões dos homens, frequentemente reinterpretando as Escrituras à luz da razão e das tendências culturais contemporâneas. A interpretação bíblica liberal é seletiva, adaptando as passagens às normas culturais, o que leva a uma distorção da mensagem.
  • Deus: O cristianismo enfatiza a transcendência majestosa de Deus, o abismo entre criatura e Criador. Deus é imanente ao mundo como seu criador e sustentador, não por ser identificado com ele. O liberalismo, por outro lado, muitas vezes perde de vista essa transcendência, diluindo a divindade de Deus e enfatizando um conceito de Deus como um "Pai" que se adapta às ideias humanas. O liberalismo tende a substituir a revelação especial de Deus por experiências e emoções particulares.
  • Homem: O cristianismo começa com a consciência do pecado. A Bíblia expõe o abismo que separa o homem de Deus por causa do pecado, e a necessidade de um Salvador. O liberalismo, no entanto, tende a minimizar ou ignorar a realidade do pecado, vendo-o como uma imperfeição ou um obstáculo superável pelo esforço humano.
  • Cristo: Para o cristianismo, Jesus é o Salvador, o objeto da fé, que se sacrificou pelos pecados da humanidade. A expiação vicária de Cristo na cruz é central. O liberalismo, por sua vez, vê Jesus como um exemplo moral, um guia, e não como o objeto da fé. A morte de Cristo é vista como um exemplo de autossacrifício a ser imitado, ou como uma demonstração do amor de Deus. A ênfase é na vida de Jesus, e não em sua morte redentora. A singularidade de Jesus, incluindo sua ausência de pecado, é frequentemente negada pelo liberalismo.
  • Salvação: A salvação cristã é um ato de Deus, um dom gratuito recebido pela fé em Cristo. O homem não pode se salvar por seus próprios esforços. O liberalismo, em contraste, tende a ver a salvação como algo alcançado através do esforço humano, pela obediência aos ensinamentos de Cristo ou pela busca de uma vida moral. A fé, para o liberalismo, é vista como "fazer de Cristo o mestre na vida", um tipo de legalismo disfarçado.

As consequências do liberalismo teológico são:


Em essência, o liberalismo teológico, ao substituir os fundamentos do cristianismo por conceitos e valores humanos, cria uma religião totalmente diferente. A fé na humanidade substitui a fé em Deus; a moralidade pessoal e social toma o lugar do socorro divino; e a mensagem centrada na cruz, na expiação e na ressurreição de Cristo é trocada por uma religião de sentimentos, experiências e aspirações humanas. O cristianismo é baseado em um evento histórico, a obra de Deus em Cristo, enquanto o liberalismo se baseia nas emoções variáveis dos homens.


Liberalismo Teológico e a Perda de Foco

A "perda de foco" nas igrejas liberais, mencionada neste link onde abordamos a discussão sobre o liberalismo teológico, refere-se à tendência dessas igrejas de se desviarem da mensagem central do Evangelho, buscando adaptar-se às tendências culturais dominantes com o objetivo de atrair mais membros. Este fenômeno ocorre quando a igreja, em vez de se manter fiel aos princípios e doutrinas bíblicas, prioriza a aceitação e a popularidade dentro da sociedade secular.

Essa adaptação pode levar a igreja a fazer compromissos doutrinários, diluindo ou reinterpretando ensinamentos bíblicos considerados difíceis ou impopulares. Isso se manifesta em várias formas:

  • Interpretação bíblica seletiva: O liberalismo frequentemente adota uma abordagem seletiva das Escrituras, priorizando passagens que se alinham com os valores contemporâneos e negligenciando ou reinterpretando aquelas que desafiam as normas culturais. Veja mais sobre a interpretação seletiva no artigo Interpretação Seletiva no Liberalismo Teológico.
  • Questões éticas e morais: Igrejas liberais tendem a aceitar as normas éticas e morais da sociedade secular, comprometendo a identidade distintiva do cristianismo em questões como sexualidade, vida e justiça social. Isso pode levar à perda da identidade do cristianismo como um movimento que não se conforma com os valores do mundo, mas transforma o mundo com base nos valores do reino de Deus.
  • Pluralismo religioso: O liberalismo teológico pode levar igrejas a promoverem a ideia de que todas as religiões são igualmente válidas, diluindo a exclusividade da mensagem cristã. Essa perspectiva relativiza a importância da fé em Cristo e da necessidade de conversão, que são centrais no cristianismo.
  • Substituição da revelação pela experiência: Em vez de se basear na revelação especial de Deus nas Escrituras, algumas igrejas liberais priorizam as experiências e emoções individuais como determinantes da prática religiosa. Essa abordagem subjetivista pode levar a uma fé centrada no indivíduo em vez de ser centrada em Deus.
  • Teologia da prosperidade e relativismo: Algumas correntes do liberalismo contemporâneo manifestam-se na teologia da prosperidade e no relativismo, enfatizando uma fé centrada no indivíduo em vez da verdade absoluta encontrada nas Escrituras. Isso pode levar a uma compreensão distorcida do propósito da fé cristã, que passa a ser vista como um meio para alcançar sucesso pessoal e material.
  • Perda da mensagem central do Evangelho: A busca por adaptação cultural pode levar a igreja a negligenciar a mensagem central do Evangelho, que inclui a necessidade de arrependimento, a graça de Deus, a importância do sacrifício de Cristo na cruz, a ressurreição, a salvação pela fé, e a vida eterna. Em vez de focar na transformação espiritual através da fé em Cristo, a igreja pode se concentrar em atividades sociais, políticas, ou em temas de autoajuda.
  • Superficialidade: A adaptação às tendências culturais pode resultar em uma abordagem superficial da fé, com ênfase em práticas externas ou em uma espiritualidade subjetiva em detrimento de um relacionamento profundo com Deus e um conhecimento das doutrinas bíblicas.

Em resumo, a "perda de foco" ocorre quando as igrejas liberais priorizam a popularidade e a aceitação cultural em detrimento da fidelidade à mensagem bíblica. Essa adaptação pode levar a compromissos doutrinários e a uma diluição do Evangelho, transformando o cristianismo em uma religião mais palatável para a sociedade secular, mas, ao mesmo tempo, menos fiel ao seu propósito original.


Transformação Social e o Liberalismo Teológico

A diferença na abordagem da transformação social entre o liberalismo e o cristianismo reside em suas perspectivas distintas sobre o mundo e o propósito da vida. O liberalismo tende a priorizar a transformação social e a melhoria das condições de vida neste mundo, enquanto o cristianismo vê este mundo sob a perspectiva da eternidade, priorizando a salvação da alma. O tema sobre a transformação social dentro da perspectiva liberal é um tema que foi citado neste link onde abordamos a discussão sobre o liberalismo teológico.

Aqui estão os principais pontos que evidenciam essa diferença:

  • Foco Primário: 
    • Liberalismo: Tem como foco principal a melhoria das condições sociais e a transformação do mundo presente. A religião, nesse contexto, torna-se um meio para alcançar esses fins, buscando justiça social, igualdade e progresso. A ênfase é em como os princípios religiosos podem ser aplicados para resolver problemas sociais e econômicos imediatos.
    • Cristianismo: Prioriza a salvação da alma e a preparação para a vida eterna. Embora também se preocupe com a justiça social e a melhoria das condições de vida, a perspectiva cristã é que a verdadeira transformação só pode ocorrer quando há uma mudança no coração e na relação com Deus, através da fé em Cristo.
  • Perspectiva do Mundo:
    • Liberalismo: O mundo presente é central para seus pensamentos e ações. O céu, ou a vida após a morte, tem pouca ou nenhuma importância, servindo, no máximo, como uma motivação vaga para a busca de um mundo melhor aqui e agora.
    • Cristianismo: Vê o mundo sob a perspectiva da eternidade, entendendo que a vida presente é passageira e que a verdadeira realidade está na vida futura com Deus. Os valores e as ações são medidos pela perspectiva da eternidade. O mundo presente é visto como um lugar de provação e preparação para a vida eterna.
  • Natureza da Transformação:
    • Liberalismo: Acredita que a transformação social pode ser alcançada por meio do esforço humano, aplicando princípios éticos e promovendo a justiça social. Otimista em relação às instituições humanas, acredita que estas podem ser moldadas para o bem.
    • Cristianismo: Acredita que a verdadeira transformação começa com a regeneração do indivíduo pelo Espírito Santo, um "novo nascimento" que resulta em uma nova vida. A transformação social é vista como um subproduto dessa mudança interior. Os cristãos são mais pessimistas em relação à capacidade das instituições humanas de trazerem mudanças genuínas, acreditando que é necessária uma transformação do caráter humano.
  • Importância da Igreja:
    • Liberalismo: A igreja é vista como uma agente de mudança social, com foco na aplicação prática de princípios éticos para a melhoria do mundo. A unidade da igreja é frequentemente vista como uma questão de cooperação em causas sociais, e não necessariamente em torno de doutrinas específicas.
    • Cristianismo: A igreja é entendida como uma comunidade de crentes unidos em torno da fé em Cristo, que buscam a salvação da alma e a comunhão com Deus e uns com os outros. A transformação social é vista como uma consequência da vida cristã e da aplicação dos princípios do amor e da justiça, mas nunca como o objetivo principal.
  • Evangelismo:
    • Liberalismo: O evangelismo liberal foca em espalhar as bênçãos da civilização e da cultura, sem necessariamente levar os indivíduos a abandonarem suas crenças pagãs. O foco é na melhoria das condições de vida e na promoção de valores éticos universais.
    • Cristianismo: O evangelismo cristão busca a salvação das almas, entendendo que a transformação social genuína só pode ocorrer quando os indivíduos têm um relacionamento correto com Deus através de Cristo. A mensagem principal é a necessidade do novo nascimento e da fé na obra redentora de Jesus.
  • Salvação:
    • Liberalismo: A salvação é vista como algo a ser alcançado através do esforço humano, por meio da obediência aos comandos de Cristo e da prática do bem. A ênfase é na moralidade e no aperfeiçoamento pessoal.
    • Cristianismo: A salvação é entendida como um dom gratuito de Deus, recebido pela fé no sacrifício expiatório de Jesus Cristo na cruz. A obra de Cristo é central para a salvação, que é vista como uma transformação da natureza humana pelo poder do Espírito Santo.

Em resumo, o liberalismo busca uma transformação social através do esforço humano e da aplicação de princípios éticos no mundo presente, enquanto o cristianismo busca a transformação do indivíduo e da sociedade através do poder do Evangelho, vendo este mundo sob a perspectiva da eternidade. O liberalismo prioriza o coletivo e a melhoria das condições de vida, e o cristianismo prioriza o indivíduo e a salvação da alma. Embora o cristianismo se preocupe com a justiça e a melhoria social, o seu foco principal está na relação do homem com Deus e na esperança da vida eterna.